sábado, 22 de setembro de 2012

CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS DA IMPUNIDADE

 
Autor: Rubem Penz
De nada adianta remediar as consequências sem, antes, combater suas causas. Estaríamos diante de um argumento perfeito e acabado para priorizar políticas públicas senão fosse um pequeno problema: em um país carente como o Brasil, causas e consequências estão emaranhadas de tal forma que fica difícil saber onde estão umas e outras. Assim, não tem ponta do fio que se puxe sem enforcar um laço logo adiante. Mas, em algum momento, alguém precisará enfrentar o nó.
Por exemplo: pichações e depredações de bens públicos são, claramente, consequências de uma comunidade com valores deturpados, impunidade, baixa autoestima e falta de educação. Bom, mas valores deturpados são consequência da impunidade, que é uma das causas da baixa autoestima, que, por sua vez, é uma das consequências dos baixos investimentos em educação causados, entre outras coisas, pelo enorme e constante dispêndio de capital na reconstrução e limpeza de bens públicos depredados em consequência da total impunidade causada por valores deturpados etc.
Outro caso: o número inacreditável de mortes no trânsito é, de forma consensual, consequência das manobras imprudentes de motoristas despreparados, alcoolizados ou impunes, dirigindo em vias mal sinalizadas e pouco fiscalizadas. Mas motoristas alcoolizados são consequência de vias pouco fiscalizadas, uma das causas da impunidade que permite aos motoristas despreparados fazerem suas manobras imprudentes às vezes causadas por deficiência na sinalização por falta de verbas em consequência do grande prejuízo causado por tantas mortes no trânsito de cidadãos produtivos e por aí vamos sem parar.
Vejamos outro problema: a corrupção. Ela só é possível graças à certeza de impunidade de agentes públicos e privados antiéticos com livre acesso às verbas de modo nada transparente. Acontece que a falta de transparência é consequência da ação dos representantes públicos corruptos, que agem a serviço de empresários antiéticos e que só existem por causa da impunidade que resulta da falta de transparência, que nasce no rastro do livre acesso às verbas por parte de agentes públicos mal intencionados que são resultado de um sistema corrupto alimentado por doses absurdas de impunidade.
Eu poderia ficar por muitas páginas elegendo um por um dos problemas brasileiros, identificando suas causas e concluindo que elas são, também, pura consequência. Porém, os três exemplos acima, vistos na ótica de um leigo, são mais que suficientes para dar a idéia do emaranhado em que vivemos. Para tornar o caso mais dramático, a cada ano o novelo cresce mais, se enreda mais, muito mais nos confunde.
Pensando nisso, lembrei (quisera esquecer...) do tempo de pescador: a mesma linha que alcança grandes distâncias quando arremessada de uma carretilha, nem atinge o chão quando forma um flash – também conhecido como cabeleira. Em outras palavras, na mesma população reside a capacidade de avançar ou enredar-se, bastando escolher entre a ordem ou o caos. Conforme nossos exemplos, uma cidade bonita e limpa poderia atrair turistas, que gerariam empregos, consumo e impostos, que aplicados em educação e infraestrutura fariam crescer a autoestima e a consciência pública, esta última com a tendência a exigir estruturas políticas mais transparentes para repelir os representantes desonestos e punir quem se dispusesse a subornar o governo.
Bom, mas então basta encontrar os pichadores, depredadores, corruptos e todos os problemas estarão resolvidos? Não. O raciocínio é o inverso: enquanto não se prevenir e punir sequer as pichações, depredações e corruptos (crimes ridículos), o nó maior nunca será desatado. Causas e consequências, ações e reações, são as duas pontas da mesma linha.
Fonte: Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com
                                     fabioxoliveira.blog.uol.com.br/

1 Comentários:

Às 26 de julho de 2015 12:03 , Blogger Mc Saul disse...

é isso aí

 

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