domingo, 18 de março de 2012

UM ÓTIMO LUGAR

Autor: Montserrat Martins

[EcoDebate] Tentei fugir do carnaval e fui vencido, até no paraíso natural que é Águas de Lindóia (a água que a NASA bebe) tinha funk por tudo, implacável. Entre montanhas, matas, cachoeiras, onde se poderia se ouvir o som dos pássaros, do vento ou das águas, lá vinha aquela batida constante, nos carros passando com o som a todo. Bem que um prefeito desse vasto interiorzão do país podia decretar uma “cidade livre de poluição sonora”, um atrativo turístico – como dizem na lógica do mercado, ia ‘fazer a diferença’. Já meu filho Marcelo, de 17 anos, prefere a bagunça do carnaval, gosta de funk e não tá nem aí pro som alto, ele tem uma teoria de que as novas gerações nascem com a audição adaptada e até sentem falta do barulho das cidades.

Mesmo assim, há um certo desperdício nessa “uniformização da cultura” que impõe a todo mundo ouvir carros gritando batidas quase iguais, com letras sem qualquer resquício de sutileza. Deve ser sintoma de velhice, tá na hora de eu assumir a palavra na sua plenitude como escreveu esses dias a Eliane Brum: eu me rendo, acuso a idade. Uma cidade turística pros velhinhos, então.

Gosto de coisas autênticas, vejo desperdícios de vocações. Mesmo não sendo a minha praia consigo me imaginar apreciando um baile funk num morro carioca, onde ele surgiu e tem a ver com a vivência das pessoas, a cultura local. Nos carros que tocam só pra impressionar os outros não há nada de espontâneo, é só jogo de cena, quer dizer, o que me incomoda mesmo são os “pseudo-funkeiros” estridentes. O que eles tem a ver com o modo de viver lá do norte de São Paulo, divisa com Minas Gerais ? Onde as pessoas no dia a dia preferem a música sertaneja, ou a moda de viola mineira, bem mais melódicas e pacatas como o ritmo de suas vidas. Mas onde se ouve também música dance (com o tuc-tuc padrão da batida americana) até nos recantos das cachoeiras, ao invés do som da queda d’água.

O mote da música é só um exemplo dentre milhares de desperdícios de vocações país afora, de não aproveitarmos as melhores possibilidades de cada região, envolvidos que estamos numa globalização automática, compulsória, impensada. Mudando de exemplo, uma vez os japoneses nos deram de presente uma ferrovia. Sabem para que ela servia ? Para transportar minérios de ferro do interior até um porto, no nordeste, de onde seguia de navio para o Japão. Ouvi de um grande empresário que já trabalhou na região Norte um lamento pela devastação causada por Belo Monte, que segundo ele servirá para levar nossos minérios também, a preço de banana, para o exterior. Me chamou a atenção ouvir isso de um empresário e não de um ambientalista, quer dizer, veio de alguém que sabe dar valor aos bons negócios. Para ele é um desperdício de recursos naturais porque grande parte da energia produzida será consumida na própria região, pelas mineradoras, e as modificações estruturais na região farão dela uma “porta aberta” para a exploração colonial. Ouvi tudo isso há uns dois anos, antes do filme Avatar ou das campanhas que hoje existem na rede alertando sobre Belo Monte – contra as quais foi lançada agora a propaganda oficial, com “palavras de ordem” repetindo na TV o discurso da pretensa “sustentabilidade” da obra.

O século XXI é diferente de todos os outros porque podemos não sair dele vivos; diz a profecia científica que “as baratas herdarão a Terra”. Não temos como nos dar ao luxo de errar tanto com nossos recursos naturais como foi feito no século passado pela Europa – que só depois de destruir sua natureza descobriu o conceito de desenvolvimento sustentável. Lugar de hidroelétrica não é na floresta, onde gera metano. O que nos lembra que no Brasil tudo está por ser feito em termos de civilização, olhe o que acontece no caso do Pinheirinho, onde leis que não consideram a função social da propriedade são usadas burocraticamente por poucos, de modo insensível, contra as necessidades da maioria.

Quando vemos a falta de controle sobre a corrupção e o crime organizado, começando pela absoluta falta de leis específicas capazes de enfrentá-los, a explicação está na “sacada” do Luís Fernando Veríssimo, quando nos lembra em uma única frase que ainda não somos uma nação, somos um belo território a ser civilizado: “O Brasil é um ótimo lugar para se fazer um país”.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.

Fonte: EcoDebate

quarta-feira, 14 de março de 2012

DITADURA ECONÔMICA

Autor: Frei Betto

A pobreza já afeta 115 milhões de pessoas nos 27 países da União Europeia. Quase 25% da população. E ameaça mais150 milhões de habitantes.

Na Espanha, a taxa de desemprego atinge 22,8%. Grécia e Itália encontram-se sob intervenção branca, governados por primeiros-ministros indicados pelo FMI. Irlanda e Portugal estão inadimplentes. Na Bélgica e no Reino Unido, manifestações de rua confirmam que “a festa acabou”.

Agora, o Banco Central da União Europeia quer nomear, para cada país em crise, um interventor de controle orçamentário. É a oficialização da ditadura econômica. Reino Unido e República Tcheca votaram contra. Porém, os outros 25 países da União Europeia aprovaram. Resta saber se a Grécia, o primeiro na lista da ditadura econômica, vai aceitar abrir mão de sua soberania e entregar suas contas ao controle externo.

A atual crise internacional é muito mais profunda. Não se resume à turbulência financeira. Está em crise um paradigma civilizatório centrado na crença de que pode haver crescimento econômico ilimitado num planeta de recursos infinitos… Esse paradigma identifica felicidade com riqueza; bem-estar com acumulação de bens materiais; progresso com consumismo.

Todas as dimensões da vida – nossa e do planeta – sofrem hoje acelerado processo de mercantilização. O capitalismo é o reino do desejo infinito atolado no paradoxo de se impor num planeta finito, com recursos naturais limitados e capacidade populacional restrita.

A lógica da acumulação é mais autoritária que todos os sistemas ditatoriais conhecidos ao longo da história. Ela ignora a diversidade cultural, a biodiversidade, e comete o grave erro de dividir a humanidade entre os que têm acesso aos recentes avanços da tecnociência, em especial biotecnologia e nanotecnologia, e os que não têm. Daí seu efeito mais nefasto:

a acumulação ou posse da riqueza em mãos de uns poucos se processa graças à despossessão e exclusão de muitos.

A questão não é saber se o capitalismo sairá ou não da enfermaria de Davos em condições de sobrevida,ainda que obrigado a ingerir remédios cada vez mais amargos, como suprimir a democracia e trocar o voto popular pelas agências de avaliação econômica, e os políticos por executivos financeiros, como ocorreu agora na Grécia e na Itália.

A questão é saber se a humanidade, como civilização, sobreviverá ao colapso de um sistema que associa cidadania com posse e civilização com paradigma consumista anglossaxônico.

Estamos às vésperas da Rio+20. E ninguém ignora que esta casa que habitamos, o planeta Terra, sofre alterações climáticas surpreendentes. Faz frio no verão e calor no inverno. Águas são contaminadas, florestas devastadas, alimentos envenenados por agrotóxicos e pesticidas.

Os resultados são secas, inundações, perda da diversidade genética, solos desertificados… Há na comunidade científica consenso de que o efeito estufa e, portanto, o aquecimento global, resulta da ação deletérea do ser humano.

Todos os esforços para proteger a vida no planeta têm fracassado até agora. Em Durban, em dezembro de 2011, o máximo que se avançou foi a criação de um grupo de trabalho para negociar um novo acordo de redução do efeito estufa… a ser aprovado em 2015, e colocado em prática em 2020!

Enquanto isso, o Departamento de Energia dos EUA calculou que, em 2010, foram emitidas 564 milhões de toneladas de gases de aquecimento global. Isto é, 6% a mais do que no ano anterior.

Por que não se consegue avançar? Ora, a lógica mercantil impede. Basta dizer que os países do G8 propõem não salvar a vida humana e do planeta, mas criar um mercado internacional de carbono ou energia suja, de modo a permitir aos países desenvolvidos comprar cotas de poluição não preenchidas por outros países pobres ou em desenvolvimento.

E o que a ONU tem a dizer? Nada, porque não consegue livrar-se da prisão ideológica da lógica do mercado. Propõe, portanto, à Rio+20 uma falácia chamada “Economia Verde”. Acredita que a saída reside em mecanismos de mercado e soluções tecnológicas, sem alterar as relações de poder, reduzir a desigualdade social e criar um mundo ambientalmente sustentável no qual todos tenham direito ao bem-estar.

Os donos e grandes beneficiários do sistema capitalista – 10% da população mundial – abocanham 84% da riqueza global e cultivam o dogma da imaculada concepção de que basta limar os dentes do tubarão para que ele deixe de ser agressivo.

Fonte: Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com
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domingo, 11 de março de 2012

PARA ONDE IRÃO OS INDIGNADOS E OS "OCCUPIERS"?

Autor: Leonardo Boff, Filósofo e Teólogo

Uma das mesas de debates importante no Fórum Social Temático em Porto Alegre, da qual me coube participar, foi escutar os testemunhos vivos dos Indignados da Espanha, de Londres, do Egito e dos USA. O que me deixou muito impressionado foi a seriedade dos discursos, longe do viés anárquico dos anos 60 do século passado com suas muitas “parolle”. O tema central era “democracia já”. Reivindicava-se uma outra democracia, bem diferente desta a que estamos acostumados, que é mais farsa do que realidade. Querem uma democracia que se constrói a partir da rua e das praças, o lugar do poder originário. Uma democracia que vem de baixo, articulada organicamente com o povo, transparente em seus procedimentos e nãomais corroída pela corrupção. Esta democracia, de saída, se caracteriza por vincular justiça social com justiça ecológica.

Curiosamente, os indignados, os “occupiers” e os da Primavera Árabe não se remeteram ao clássico discurso das esquerdas, nem sequer aos sonhos das várias edições do Fórum Social Mundial. Encontramo-nos num outro tempo e surgiu uma nova sensibilidade. Postula-se outro modo de ser cidadão, incluindo poderosamente as mulheres antes feitas invisíveis, cidadãos com direitos, com participação, com relações horizontais e transversais facilitadas pelas redes sociais, pelo celular, pelo twitter e pelos facebooks. Temos a ver com uma verdadeira revolução. Antes as relações se organizavam de forma vertical, de cima para baixo. Agora é de forma horizontal, para os lados, na imediatez da comunicação à velocidade da luz. Este modo representa o tempo novo que estamos vivendo, da informação, da descoberta do valor da subjetividade, não aquela da modernidade, encapsulada em si mesma, mas da subjetividade relacional, da emergência de uma consciência de espécie que se descobre dentro da mesma e única Casa Comum, Casa, em chamas ou ruindo pela excessiva pilhagem praticada pelo nosso sistema de produção e consumo.

Essa sensibilidade não tolera mais os métodos do sistema de superar a crise econômica e derivadas, sanando os bancos com o dinheiro dos cidadãos, impondo severa austeridade fiscal, a desmontagem da seguridade social, o achatamento dos salários, o corte dos investimentos no pressuposto ilusório de que desta forma se reconquista a confiança dos mercados e se reanima a economia. Tal concepção é feita dogma e ai se ouve o estúpido bordão: “TINA: there is no alternative”, não há alternativa. Os sacrílegos sumos sacerdotes da trindade nada santa do FMI, da União Européia e do Banco Central Europeu deram um golpe financeiro na Grécia e na Itália e puseram lá seus acólitos como gestores da crise, sem passar pelo rito democrático. Tudo é visto e decidido pela ótica exclusiva do econômico, rebaixando o social e o sofrimento coletivo desnecessário, o desespero das famílias e a indignação dos jovens por não conseguirem trabalho. Tudo pode desembocar numa crise com consequências dramáticas.

PaulKrugmann, prêmio Nobel de economia, passou uns dias na Islândia para estudar a forma como esse pequeno país ártico saiu de sua crise avassaladora. Seguiram o caminho correto que outros deveriam também ter seguido: deixaram os bancos quebrar, puseram na cadeia os banqueiros e especuladores que praticaram falcatruas, reescreveram a constituição, garantiram a seguridade social para evitar uma derrocada generalizada e conseguiram criar empregos. Consequência: o país saiu do atoleiro e é um dos que mais cresce nos países nórdicos. O caminho islandês foi silenciado pela mídia mundial de temor de que servisse de exemplo para os demais países. E a assim a carruagem, com medidas equivocadas mas coerentes com o sistema, corre célere rumo a um precipício.

Contra esse curso previsível se opõem os indignados. Querem um outro mundo mais amigo da vida e respeitoso da natureza. Talvez a Islândia servirá de inspiração. Para onde irão? Quem sabe? Seguramente não na direção dos modelos do passado, já exauridos. Irão na direção daquilo que falava Paulo Freire “do inédito viável” que nascerá desse novo imaginário. Ele se expressa, sem violência, dentro de um espírito democrático-participativo, com muito diálogo e trocas enriquecedoras. De todas as formas o mundo nunca será como antes, muito menos como os capitalistas gostariam que ficasse.

Fonte: Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com
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sábado, 3 de março de 2012

ALIENAÇÃO DO POVO BRASILEIRO

Autor: Brunno Soares

De tudo a nossa pátria amada tem. De ladrão à artista de cinema, sem deixar de lado os nossos "ídolos políticos", e os gângsteres da dependência social do povo brasileiro, os chamados: "veículos de informação".
Numa sociedade inteiramente capitalista, tudo se resume em ganhar ou perder, dividir, jamais! Em meio a esse processo, até as informações seguem essa linha de pensamento. O que vale é esconder do povo a verdade, os direitos, e as possibilidades de mudanças, fazendo nossa nação ter uma visão deturpada dos valores sociais.
Dado esse quadro, podemos verificar que tudo isso contribuí para o processo de alienação do povo brasileiro, afinal, fica muito difícil para alguém sem informação e formação discutir e até lutar pelos seus ideais. Não falo de revoltas populares ou golpes armados, mas apenas do sonho de fazer parte de uma sociedade atuante em seus deveres, igualitária em seus direitos e justa em sua formação.
Se voltarmos no tempo, veremos que isso vem desde a ocupação portuguesa em nossas terras até em tão “virgens”. O nosso povo se acostumou a não lutar pelo que é seu, e isso inclui também o conhecimento. Uma nação sábia jamais será enganada.
Atualmente, as famílias brasileiras preferem se viciar nos capítulos de uma novela, dque se aventurar nas páginas de um bom livro. É aí onde mora o perigo, não se pode fechar os olhos para esse processo de dominação. A elite até espera uma reação da nossa parte, mas são poucos os que enxergam a realidade brasileira como ela é. E essa minoria não tem o poder suficiente de impactar toda uma nação. “Um povo sem sabedoria e discernimento sempre será um povo submisso!”
De fato, não é isso que queremos para o nosso país. Esperar que a sorte bata a nossa porta é se entregar inteiramente a esse processo de alienação. O brasileiro precisa deixar de se preocupar com a programação das redes de TV e olhar um pouco para o que está a sua volta. Deixar de ser um observador e passar a ser um formador de opinião.
Quando falamos da TV, é correto mencionar que existem programas com um alto grau educativo, porém a briga pela audiência faz com que esses “hobbin hods” sejam exibidos em horários inconvenientes para a maioria das pessoas. Mas esse não é o único fator que leva o povo a ser controlado, entretanto, é um forte aliado da classe dominante, porque assim o povo não ouve os críticos, não vê o quadro social do país e termina sendo apenas uma massa sem expressão, sem um caráter ideológico formado e que só tem importância em época de eleição.
O povo brasileiro precisa ler, se informar, criar opinião própria, mas tudo tem que ser feito às nossas custas. A julgar pelos nossos políticos, eles nunca darão ao povo a verdadeira oportunidade de aprender e assim observar e contestar a realidade do país. Com ajuda dos veículos de informação, a classe dominante-exploradora quer nos levar ao total anonimato, fazer com que acreditemos que tudo está bem e que somente no futuro vai melhorar. A libertação desse processo só será real quando o próprio povo acordar, e deixar de pensar no ter e buscar o essencial: ser. Para que enfim, passemos de coadjuvantes a protagonistas desse espetáculo chamado sociedade.
Fonte: Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com
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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O POVO QUE AMO

Autor: Rubem Alves
 “Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche.
 É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”.
 Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer aquilo sobre o que me calei: “O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo.
 Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar:  a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.
 A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos.
 Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.
 E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou. Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos.
 E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre”. Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.
 Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga.
 Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.
 O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro “O Homem Moral e a Sociedade Imoral” observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.
 Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
 Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.
 Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.
 Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.
 Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O povo, unido, jamais será vencido!
 Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, à semelhança do que aconteceu na China.
 De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção”. Isso é tarefa para os artistas e educadores. O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.
 Fonte: Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com
                                  fabioxoliveira.blog.uol.com.br/

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

UM BALÃO VAI EXPLODIR NA EUROPA

Autor: Mauro Velado Neto
    Alguém está assoprando um balão na Europa. A boca dessa esfera está na Grécia. Pela lógica, essa bexiga se expande até seu ponto crítico, quando explode. E aí surgem as consequências que se alastram potencialmente para diversos países, vinculados ao mesmo sistema econômico.   
     A mídia tem dado extenso noticiário sobre tal situação. Mas é preciso que se identifique claramente quem é esse Alguém que está assoprando, assoprando. É a isso que nos propomos fazer nas linhas que se seguem.
    O sistema econômico, sobre o qual se assenta a sociedade ocidental predominante, com especificidade na região da União Europeia que adotou a moeda única — o Euro —, é uma estrutura capitalista, vale dizer: de ganância e mais ganância. Daí vem em primeiro lugar — como objetivo único de vida —, a obtenção de lucro financeiro, isto é, renda parasitária  baseada na necessidade essencial do conjunto produtivo, constituído pelo povo, geralmente não pensante por ter a mente aprisionada pela mídia.  
    Em palavras claras, a sistemática é a seguinte: os Bancos são instituições que guardam o dinheiro da gente miúda. Geralmente, esse bem não sai do Banco em suas transações. Com isso, esse Estabelecimento fica entesourado. E eles são protegidos imoralmente pelos Governos nacionais, pois é neles que estes se abastecem para navegar em riquezas. Essas duas instituições têm relações financeiras simbiônticas.
    Acontece que, por consequência do império de ganância que reina na sociedade, alguns ficam com dinheiro sobrando, isto é, não necessário para viver. Aplicam esse excesso no Banco e se tornam investidores. Na verdade, o Banco é apenas um intermediário. Quem recebe esse sangue financeiro é o governo. Como? Os governos, além dos altíssimos impostos a que submetem as atividades produtivas, gasta irresponsavelmente muito mais do que arrecada. As vasilhas governamentais têm muitos furos por onde escapam fortunas.
    Mas como compensa essa diferença de insensatez? Pede (exige) empréstimo ao Banco, por prazo variável que pode ser por cinco ou dez anos. O Estabelecimento fica satisfeito porque transfere o dinheiro dos investidores para o governo, um cliente perene e soberano que paga em dia. Na ocasião, o Banco desconta os juros — seu lucro — e fica aguardando o próximo pedido de empréstimo. Todos os governos agem dessa forma. É desse disponível que os políticos fazem as farras absurdas, inclusive esbanjamentos e custos de olimpíadas espetaculares que só servem para enriquecer terceiros.
    No dia de vencimento de um desses papéis — notas promissórias, melhor dizendo —, o governo paga com outra promissória de valor igual, acrescida dos juros combinados. E assim, vai tocando.
    Muito bem. A Grécia se exacerbou nessa prática. Ficou devendo exageradamente mais do que sua capacidade de pagar. Tudo como resultado de uma farra de dinheiro dos aplicadores, aqueles que tinham dinheiro sobrando. Esse procedimento, um pouquinho menos intenso, também é ou foi executado pela Itália, Espanha, Portugal e demais países por esse mundo afora.
    Acontece que os Bancos comerciais, os Bancos Centrais, governos representativos do sistema e demais instituições financeiras estão enxergando perdas de investimentos próprios e de terceiros nessa situação. Já concordaram com um prejuízo de cem bilhões de euros a troco de certas condições que lhes iriam repor o prejuízo mais para o futuro.
    Isso não vai dar certo. Por quê? Porque não existem milagres. A única solução que vemos é a seguinte: a realidade. Isso significa que o governo grego declare simplesmente o calote, isto é, o simples não pagamento do que deve. Nada de significativo vai ocorrer. Vai perder dinheiro quem o tem sobrando. Os outros perderão empregos e desordens políticas e sociais. Mas isso tudo seria consequência de uma situação econômica em que o dinheiro não tem apenas a função social que lhe é própria, a de ganhar sem trabalhar.
  Fonte: Folha de Goiás
 

 

   







 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

ALHEIAMENTO DO POVO PELA ALA DOMINANTE

Autor: André Marques
Trago aqui noções básicas sobre como funciona a alienação que tanto é citada em rodas de conversa e sites de mídia alternativa. Se você ainda está por fora de o que seja essa palavra tão comentada e repudiada, venho dar uma mão para você entendê-la.
Alienação, segundo os dicionários é o estado de separação ou alheação da pessoa de alguma coisa que lhe pertencia ou a que pertencia e a transferência dessa coisa para outra pessoa ou entidade. Se você está alienado da sociedade, é porque está separado dos problemas coletivos e transferindo sua responsabilidade sócio-política aos outros. Sendo alienado, você não participa diretamente da edificação da integridade social do país, mesmo que esteja participando da dinâmica econômico-financeira da região e do país como um empregado ou empresário e pagando impostos, formas apenas indiretas de participação social.
A alienação social, política e cultural que tenho grandes vontades de combater ocorre quando o sujeito vive alheio, na maioria das vezes por indução cultural constante, aos problemas inerentes à sociedade, à política e também aos aspectos culturais de implicações questionáveis. Um alienado não está nem aí se a violência explode no seu bairro – exceto quando é assaltado, claro –, se os ônibus da cidade estão com a passagem cara e vivem superlotados nas horas de rush, se animais e ecossistemas são trucidados com seus hábitos alimentares e consumistas ou se a corrupção está galopando em Brasília ou na assembléia legislativa de seu estado. Nada disso lhe interessa genuinamente, o que realmente vale pra ele são os últimos capítulos da novela, os momentos sensuais do reality-show, o megahit musical da moda ou, no caso do religioso, o que vale é o futuro após a morte num maravilhoso e paradisíaco mundo do além, mesmo que isso seja obtido com reclusão e auto-segregação social num ato de se auto-alienar do mundo real. Essa é a alienação.
De trás para frente, ela é cultural porque envolve essa gama de aspectos culturais em detrimento de opções, digamos, mais edificantes, como a literatura e a troca de idéias com o próximo. Política porque o alienado diz estufando o peito que odeia política e não quer se meter em nada que denote atos políticos, mesmo sendo estes os norteadores de qualquer sociedade e dos mais diferentes aspectos da vida de qualquer ser humano. E social porque há a não-preocupação, numa inválida e antiética isenção, com os problemas sociais das pessoas desde de sua comunidade até do universo populacional de seu país.
A manutenção do povo sob esse controle cultural e intelectual permite, entre outras coisas, que políticos mal-encarados continuem fazendo o que bem querem em Brasília, empresários expandam seus empreendimentos sobre espaços naturais, os 10% mais ricos da população continuem abocanhando cerca de metade das riquezas brasileiras, os bispos de pseudo-igrejas mal-intencionadas continuem acumulando fortunas com dízimos dos fiéis enganados, pecuaristas permaneçam lucrando alto sobre a morte massiva de animais sofredores e oligarquias detenham perpetuamente o tão desejado poder político. Tudo isso é muito benéfico pra manutenção do estado de riqueza e opulência dessas turmas.
A elite brasileira faz de tudo pra não perder sua hegemonia perante o povo. Posso chamar essa turma de Ala Dominante, já que exercem de fato uma dominação sobre o povo. Compreende todos aqueles que deixam evidente que se beneficiam da alienação e de suas implicações e gostam disso. Inclui políticos, megaempresários, magnatas da comunicação, bispos, latifundiários e outros poderosos. Devo relevar que não são todas as pessoas que têm esses empregos que são genuinamente interessadas na “fuleiragem”, há muitos sujeitos de bem que tanto não desejam o sustento de poder pelo controle da pirâmide sócio-econômica como manifestam consciência positiva e, por boa vontade, financiam ou tutelam atividades de responsabilidade. Só não dá pra listar com toda certeza os nomes dos verdadeiros benfeitores.
Contra o poderio da Ala Dominante, o que se pode fazer é continuar esclarecendo as pessoas, propagando a conscientização, de modo que numa época mais próxima possível haja a transformação da vontade popular de suplantar os interesses dominantes em práticas de cidadania.
Fonte: : Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com