quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

NATAL

por Rubem Alves
Fonte: Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com
Fabioxoliveira.blog.uol.com.br/

"(...) Natal me deixa triste. Porque, por mais que o procure, não o encontro. Natal é uma celebração. As celebrações acontecem para trazer do esquecimento uma coisa querida que aconteceu no passado. A celebração deve ser semelhante à coisa celebrada. Não posso celebrar a vida de Gandhi com um churrasco. Ele era vegetariano, amava os animais. Uma celebração de Gandhi teria de ser feita com verduras, água, leite e um falar baixo. Mais a leitura de alguns textos que ele deixou escritos. Assim Gandhi se tornaria um dos hóspedes da celebração.

Agora, um visitante de outro planeta que nada soubesse das nossas tradições, se ele comparecesse às festas de Natal, sem que nenhuma explicação lhe fosse dada, ele concluiria que o objeto da celebração deveria ser um glutão, amante das carnes, bebidas, do estômago cheio, das conversas em voz alta, do desperdício. Nossas celebrações de Natal são como as cascas de cigarra agarradas às árvores. Cascas vazias, das quais a vida se foi. Se perguntar às crianças o que é que está sendo celebrado, eles não saberão o que dizer. Dirão que o Natal é dia do Papai Noel, um velho barrigudo de barbas brancas amante do desperdício, que enche os ricos de presentes e deixa os pobres sem nada. (...) Pois é certo que as celebrações do Natal são orgias de ricos, celebrações do desperdício e lixo. Celebrações do lixo? Aquelas pilhas de papel de presente colorido em que vieram embrulhados os presentes, não são elas essenciais às celebrações? Rasgados, amassados, embolados num canto. Irão para o lixo. Quantas árvores tiveram de ser cortadas para que aqueles papéis fossem feitos. Para quê? Para nada. A indiferença com que tratamos o papel de presentes é uma manifestação da indiferança com que tratamos a nossa Terra.

Estou convidando meus amigos para uma celebração de Natal. Ela deverá imitar a ceia que José e Maria tiveram naquela noite: velas acesas, um pedaço de pão velho, vinho, um pedaço de queijo, algumas frutas secas. À volta de um prato de sopa de fubá – comida de pobre –, tentaremos reconstruir na imaginação aquela cena mansa na estrebaria, um nenezinho deitado numa manjedoura, uma estrela estranha nos céus, os campos iluminados pelos vaga-lumes. E ouviremos as velhas canções de Natal, e leremos poemas, e rezaremos em silêncio. Rezaremos pela nossa Terra, que está sendo destruída pelo mesmo espírito que preside nossas orgias natalinas. (...)"

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A MUDANÇA DE PARADIGMA

Transcrevemos esclarecido texto elaborado por Fritjof Capra, eminente ambientalista.
Fonte: Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com - fabioxoliveira.blog.uol.com.br/

“Na minha vida de físico, meu principal interesse tem sido a dramática mudança de concepções e de idéias que ocorreu na física durante as três primeiras décadas deste século, e ainda está sendo elaborada em nossas atuais teorias da matéria. As novas concepções da física têm gerado uma profunda mudança em nossas visões de mundo; da visão de mundo mecanicista de Descartes e de Newton para uma visão holística, ecológica.
A nova visão da realidade não era, em absoluto, fácil de ser aceita pelos físicos no começo do século. A exploração dos mundos atômico e subatômico colocou-os em contato com uma realidade estranha e inesperada. Em seus esforços para apreender essa nova realidade, os cientistas ficaram dolorosamente conscientes de que suas concepções básicas, sua linguagem e todo o seu modo de pensar eram inadequados para descrever os fenômenos atômicos. Seus problemas não eram meramente intelectuais, mas alcançavam as proporções de uma intensa crise emocional e, poder-se-ia dizer, até mesmo existencial.
Eles precisaram de um longo tempo para superar essa crise, mas, no fim, foram recompensados por profundas introvisões sobre a natureza da matéria e de sua relação com a mente humana.
As dramáticas mudanças de pensamento que ocorreram na física no princípio deste século têm sido amplamente discutidas por físicos e filósofos durante mais de cinqüenta anos. Elas levaram Thomas Kuhn à noção de um "paradigma" científico, definido como "uma constelação de realizações - concepções, valores, técnicas, etc., - compartilhada por uma comunidade científica e utilizada por essa comunidade para definir problemas e soluções legítimos".
Mudanças de paradigmas, de acordo com Kuhn, ocorrem sob a forma de rupturas descontínuas e revolucionárias denominadas "mudanças de paradigma". Hoje, vinte e cinco anos depois da análise de Kuhn, reconhecemos a mudança de paradigma em física como parte integral de uma transformação cultural muito mais ampla.
A crise intelectual dos físicos quânticos na década de 20 espelha-se hoje numa crise cultural semelhante, porém muito mais ampla. Conseqüentemente, o que estamos vendo é uma mudança de paradigmas que está ocorrendo não apenas no âmbito da ciência, mas também na arena social, em proporções ainda mais amplas. Para analisar essa transformação cultural, generalizei a definição de Kuhn de um paradigma científico até obter um paradigma social, que defino como "uma constelação de concepções, de valores, de percepções e de práticas compartilhados por uma comunidade, que dá forma a uma visão particular da realidade, a qual constitui a base da maneira como a comunidade se organiza".
O paradigma que está agora retrocedendo dominou a nossa cultura por várias centenas de anos, durante as quais modelou nossa moderna sociedade ocidental e influenciou significativamente o restante do mundo. Esse paradigma consiste em várias idéias e valores entrincheirados, entre os quais a visão do universo como um sistema mecânico composto de blocos de construção elementares, a visão do corpo humano como uma máquina, a visão da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência, a crença no progresso material ilimitado, a ser obtido por intermédio de crescimento econômico e tecnológico, e - por fim, mas não menos importante - a crença em que uma sociedade na qual a mulher é, por toda a parte, classificada em posição inferior à do homem é uma sociedade que segue uma lei básica da natureza. Todas essas suposições têm sido decisivamente desafiadas por eventos recentes. E, na verdade, está ocorrendo, na atualidade, uma revisão radical dessas suposições.”

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

MELANCÓLICO DESFECHO DA COP 15

Transcrevemos a seguir um esclarecedor artigo do eminente ambientalista Leonardo Boff, www.leonardoboff.com/ .
Fonte: Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com
fabioxoliveira.blog.uol.com.br/
“MELANCÓLICO DESFECHO DA COP 15 – É A TREVA: RUMO AO DESASTRE
Uma jovem e talentosa atriz de uma novela muito popular, Beatriz Drumond, sempre que fracassam seus planos, usa o bordão: ”É a treva”. Não me vem à mente outra expressão ao assistir o melancólico desfecho da COP 15 sobre as mudanças climáticas em Copenhague: é a treva! Sim, a humanidade penetrou numa zona de treva e de horror. Estamos indo ao encontro do desastre. Anos de preparação, dez dias de discussão, a presença dos principais líderes políticos do mundo não foram suficientes para espancar a treva mediante um acordo consensuado de redução de gases de efeito estufa que impedisse chegar a dois graus Celsius. Ultrapassado esse nível e beirando os três graus, o clima não seria mais controlável e estaríamos entregues à lógica do caos destrutivo, ameaçando a biodiversidade e dizimando milhões e milhões de pessoas.
O Presidente Lula, em sua intervenção no dia mesmo do encerramento, 18 de dezembro, foi a único a dizer a verdade: ”faltou-nos inteligência” porque os poderosos preferiram barganhar vantagens a salvar a vida da Terra e os seres humanos.
Duas lições se podem tirar do fracasso em Copenhague: a primeira é a consciência coletiva de que o aquecimento é um fato irreversível, do qual todos somos responsáveis, mas principalmente os países ricos. E que agora somos também responsáveis, cada um em sua medida, do controle do aquecimento para que não seja catastrófico para a natureza e para a humanidade. A consciência da humanidade nunca mais será a mesma depois de Copenhague. Se houve essa consciência coletiva, por que não se chegou a nenhum consenso acerca das medidas de controle das mudanças climáticas?
Aqui surge a segunda lição que importa tirar da COP 15 de Copenhague: o grande vilão é o sistema do capital com sua correspondente cultura consumista. Enquanto mantivermos o sistema capitalista mundialmente articulado será impossível um consenso que coloque no centro a vida, a humanidade e a Terra e se tomar medidas para preservá-las. Para ele centralidade possui o lucro, a acumulação privada e o aumento de poder de competição. Há muito tempo que distorceu a natureza da economia como técnica e arte de produção dos bens necessários à vida. Ele a transformou numa brutal técnica de criação de riqueza por si mesma sem qualquer outra consideração. Essa riqueza nem sequer é para ser desfrutada mas para produzir mais riqueza ainda, numa lógica obsessiva e sem freios.
Por isso que ecologia e capitalismo se negam frontalmente. Não há acordo possível. O discurso ecológico procura o equilíbrio de todos os fatores, a sinergia com a natureza e o espírito de cooperação. O capitalismo rompe com o equilíbrio ao sobrepor-se à natureza, estabelece uma competição feroz entre todos e pretende tirar tudo da Terra, até que ela não consiga se reproduzir. Se ele assume o discurso ecológico é para ter ganhos com ele.
Ademais, o capitalismo é incompatível com a vida. A vida pede cuidado e cooperação. O capitalismo sacrifica vidas, cria trabalhadores que são verdadeiros escravos “pro tempore” e pratica trabalho infantil em vários países.
Os negociadores e os lideres políticos em Copenhague ficaram reféns deste sistema. Esse barganha, quer ter lucros, não hesita em pôr em risco o futuro da vida. Sua tendência é autosuicidária. Que acordo poderá haver entre os lobos e os cordeiros, quer dizer, entre a natureza que grita por respeito e os que a devastam sem piedade?
Por isso, quem entende a lógica do capital, não se surpreende com o fracasso da COP 15 em Copenhague. O único que ergueu a voz, solitária, como um “louco” numa sociedade de “sábios”, foi o presidente Evo Morales: “Ou superamos o capitalismo ou ele destruirá a Mãe Terra”.
Gostemos ou não gostemos, esta é a pura verdade. Copenhague tirou a máscara do capitalismo, incapaz de fazer consensos porque pouco lhe importa a vida e a Terra mas antes as vantagens e os lucros materiais.”

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

VITÓRIA DOS POBRES EM COPENHAGUE

Publicamos a seguir excelente artigo do ambientalista Antídio S. P. Teixeira.

Não é necessário ser cientista para entender a conjuntura econômica ambiental em que se encontra o mundo; apenas um pouco de boa vontade para reflexão. O insucesso dos ricos que saíram da Conferência derrotados, deve-se ao fato de que as sua fortunas tornaram-se virtuais, uma vez que as moedas que as representam perderam seus lastros reais que eram as riquezas naturais do Planeta que eles vêem saqueando desde o início da Revolução Industrial, e que estão quase esvaídas. Também a Terra ficou saturada pelos efluentes lançados pela queima de combustíveis fósseis e os resíduos do consumo supérfluo promovido para a geração de lucros que vieram constituir as suas fortunas. Ou seja, os Tesouros Nacionais podem estar abarrotados de moedas cunhadas, ou de papéis impressos, sem que os governos de países ricos tenham disposição para comprometê-las em benefício do clima de todos que eles mesmos degradaram e, depois, terem que lançar mão dos bens reais acumulados para honrar os gastos. Por isso, não foram capazes de demonstrar ao mundo a liderança que lhes conferiam o poder econômico virtual, isso é: FALIDO.

Com a intensa divulgação da Conferência na mídia e os seus resultados negativos, sai fortalecida toda a humanidade com a semeadura de uma consciência ambiental ampla que tende à contemplação dos custos ambientais de seus gastos. Aos poucos, brotará a compreensão em cada cidadão de que os poluentes liberados pelo consumo básico para o desenvolvimento e manutenção da vida natural são reciclados pelo mundo vegetal, e este tem que ser preservado para manter o equilíbrio; porém, o consumo supérfluo que é alimentado por formas de energia gerada pela queima de combustíveis fósseis (hulha, petróleo e gás natural), tem que ser evitado e combatido, ainda mesmo que ele seja sob a alegação de geração de empregos. É necessário que se entenda que cada emprego criado pela agricultura ou pela indústria automatizada impulsionada por qualquer forma de energia, desemprega dezenas de cidadãos primários nos campos e nas cidades o que ocasiona graves problemas sociais e de segurança.

APOCALIPSE AGORA

Transcrevemos a seguir um artigo do eminente pensador e ambientalista Frei Betto a respeito da oportunidade perdida em Copenhague.
“O fim do mundo sempre me pareceu algo muito longínquo. Até um contrassenso. Deus haveria de destruir sua Criação? Hoje me convenço de que Deus nem precisa mais pensar em novo dilúvio. O próprio ser humano começou a provocá-lo, através da degradação da natureza.
Os bens da Terra tornaram-se posse privada de empresas e oligopólios. A causa de 4 bilhões de seres humanos viverem abaixo da linha da pobreza, e 1,2 bilhão padecer fome, é uma só: Toda essa gente foi impedida de acesso à terra, à água, à semente, às novas técnicas de cultivo e aos sistemas de comercialização de produtos.
A decisão dos EUA e da China de ignorarem a Conferência de Copenhague sobre Mudanças Climáticas torna mais agônico o grito da Terra. Os dois países são os principais emissores de CO2 na atmosfera. São os grandes culpados pelo aquecimento global. Ao decidirem boicotar Copenhague e adiar o compromisso de reduzirem suas emissões, eles abreviam a agonia do planeta.
Felizmente, a 25 de novembro o presidente Obama, sob forte pressão, voltou atrás e desdisse o que falara em Pequim. Os EUA, responsáveis por 23% das emissões mundiais de CO2, prometerá em Copenhague reduzir, até 2020, 17% das emissões de gases de efeito estufa; 30% até 2025; e 42% até 2030.
Por que o recuo? Além da pressão dos ecologistas, Obama deu-se conta de que ficaria mal na foto ignorar Copenhague e comparecer em Oslo, dia 10 de dezembro - quando se comemora o 61º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos - para receber o prêmio Nobel da Paz. Portanto, na véspera estará na capital da Dinamarca.
Curioso, todos os prêmios Nobel são entregues em Estocolmo, exceto o da Paz. Por uma simples e cínica razão: a fortuna da Fundação Nobel, sediada na Suécia, resulta da herança do inventor da dinamite, Alfred Nobel (1833-1896), utilizada como explosivo em guerras. Como não teve filhos, Nobel destinou os lucros obtidos por sua patente a quem se destacar em determinadas áreas do saber.
Há uma lógica atrás da posição ecocida dos EUA e da China. São dois países capitalistas. O primeiro, abraça o capitalismo de mercado; o segundo, o de Estado. Ambos coincidem no objetivo maior: a lucratividade, não a sustentabilidade.
O capitalismo, como sistema, não tem solução para a crise ecológica. Sabe que medidas de efeito haverão de redundar inevitavelmente na redução dos lucros, do crescimento do PIB, da acumulação de riquezas.
Se vivesse hoje, Marx haveria de admitir que a crise do capitalismo já não resulta das contradições das forças produtivas. Resulta do projeto tecnocientífico que beneficia quase que exclusivamente apenas 20% da população mundial. Esse projeto respalda-se numa visão de qualidade de vida que coincide com a opulência e o luxo. Sua lógica se resume a "consumo, logo existo". Como dizia Gandhi, "a Terra satisfaz as necessidades de todos, menos a voracidade dos consumistas".
Exemplo disso é a recente crise financeira. Diante da ameaça de quebra dos bancos, como reagiram os governos das nações ricas? Abasteceram de recursos as famílias inadimplentes, possibilitando-as de conservar suas casas? Nada disso. Canalizaram fortunas - um total de US$ 18 trilhões - para os bancos responsáveis pela crise. Eduardo Galeano chegou a pensar em lançar a campanha "Adote um banqueiro", tal o desespero no setor.
O planeta em que vivemos já atingiu os seus limites físicos. Por enquanto não há como buscar recursos fora dele. O jeito é preservar o que ainda não foi totalmente destruído pela ganância humana, como as fontes de água potável, e tentar recuperar o que for possível através da despoluição de rios e mares e do reflorestamento de áreas desmatadas.
Ecologia vem do grego "oikos", significa casa, e "logos", conhecimento. Portanto, é a ciência que estuda as condições da natureza e as relações que entre tudo que existe - pois tudo que existe co-existe, pré-existe e subsiste. A ecologia trata, pois, das conexões entre os organismos vivos, como plantas e animais (incluindo homens e mulheres), e o seu meio ambiente.
Essa visão de interdependência entre todos os seres da natureza foi perdida pelo capitalismo. Nisso ajudou uma interpretação equivocada da Bíblia - a ideia de que Deus criou tudo e, por fim, entregou aos seres humanos para que "dominassem" a Terra. Esse domínio virou sinônimo de espoliação, estupro, exploração. Os rios foram poluídos; os mares, contaminados; o ar que respiramos, envenenado e todos os animais massacrados para virarem comida, vestuário e empregados dos humanos.
Agora, corremos contra o relógio do tempo. O Apocalipse desponta no horizonte e só há uma maneira de evitá-lo: passar do paradigma de lucratividade para o da sustentabilidade.”

Copyright 2009 - FREI BETTO - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato - MHPAL - Agência Literária (mhpal@terra.com.br).

sábado, 19 de dezembro de 2009

POR QUE FRACASSOU A CONFERÊNCIA DE COPENHAGUE?

Conforme artigos anteriores, já tínhamos previsto o insucesso da COP 15. Face à importância daquela reunião para o mundo como um todo, o conhecimento das causas do fato será proveitoso à análise transparente, realista e imparcial do ocorrido.
Faltou coragem aos principais governantes naquela assembléia. Coragem é renúncia à própria vida ou interesses em benefício da espécie, ação própria de heróis, cada vez mais raros na terra. Essa situação surge quando o homem se defronta com o medo, ocasião em que seus genes e mente decidem uma das duas opções: fugir ou lutar. No caso em exame, os participantes com poder de decisão arrostaram-se com o medo e preferiram fugir.
Eles sabem que serão extremamente prejudicados – em alguns casos, perdendo a própria vida – se tomarem as decisões corretas, lógicas e redentoras que o meio ambiente está exigindo, pois têm a consciência de que não dispõem de sua livre vontade. Sabem que são prisioneiros do sistema econômico que os sustentam politicamente e mantêm efetivamente todas as forças existentes em seus países, ai incluídas as financeiras, políticas e armadas, sustentáculos do arcabouço econômico. Ações concretas em benefício do ambiente equivalem a suicídio pessoal. Sabem que, no caso de assumirem o confronto, vão habitar o ostracismo do corpo ou da alma, e que o sistema manterá o mundo conformado aos interesses econômicos. Por isso, eles não se arriscam.
A verdade precisa ser dita: os chefes de estado não possuem poder de decisão. Participam duma reunião desse quilate apenas como fantoches. O verdadeiro poder mundial está nas mãos do capital anônimo, invisível, internacional. Esse poder não está satisfeito com os 98% do mundo em suas mãos. Ainda faltam os 2% representados por Cuba, Irã, Iraque, Afeganistão e Coréia do Norte.
A cabeça, o núcleo, o centro mentor desse poder real já não está tão escondido. Foi claramente identificado pelo ex-presidente dos EE.UU, general Eisenhower, no final de seu mandato de 8 anos, em 1961. No discurso de despedida, alertou a nação de que o poder efetivo na área de governo era o complexo industrial-militar.
Essa palavra, “complexo”, abrange todo o sistema industrial americano porquanto os gastos militares daquele país são tão vultosos e sistêmicos que encobrem os demais interesses econômicos em geral. Para se ter uma idéia, o orçamento para 2010, recentemente aprovado, consigna 672 bilhões de dólares para os gastos militares, enquanto que as verbas para a saúde e educação são inferiores. Essa dotação é maior que todos os gastos militares do resto do globo. Não foi imprópria a expressão empregada por Chaves, presidente da Venezuela, na COP 15, quando designou Barack Obama de ganhador do prêmio Nobel da Guerra.
O poder mundial está nas mãos de fanáticos adoradores do deus dinheiro, inconscientes, egressos de outro mundo e que, para foco de marketing e consumismo, promovem circos ambientalistas. Eles não sabem, e o mundo também não sabe, que esses donos do poder são o câncer de um corpo ( a mãe Terra) que ainda fornece à biodiversidade os meios de vivência, mas cujas reservas já estão desfalcadas em 75% de sua capacidade renovadora.
Nem o Sol, com sua potência energética e pujança de ciclos vitais, consegue aplacar a ganância infinita daquele câncer mortal.
Ainda não lemos o relatório final da Conferência de Copenhague, escrita em inglês, com mais de 200 páginas, mas somos capazes de traduzi-lo perfeitamente para o português brasileiro:
“Nós, os representantes dos 192 países do mundo nos reunimos e decidimos que não somos a favor nem contra; antes pelo contrário.”

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

COB 15 - A VERDADEIRA DIMENSÃO

A tendência no acordo de desencontros em Copenhague está indicando a mesma solução de todas as reuniões ambientais: adiar o assunto para a COP 16, depois para a COP 17, e assim por diante, até o dia em não haverá condições de retorno. Esse o epílogo que estamos enxergando para um assunto tão sério. Aliás, esse não é assunto tão sério assim. É simplesmente um assunto vital.
Fora o desentendimento sobre dinheiro, vê-se que a desorganização da conferência é total. Como pode um país tão evoluído como a Dinamarca montar uma reunião com mais de 20.000 credenciados? A única explicação que encontramos é a de que esse estratagema foi de caso pensado. Justamente para que não houvesse entendimento das partes. Ora, como sabemos, um acerto entre duas pessoas já é difícil, imagine-se entre vinte mil. É bom lembrar que a reunião de Copenhague já vinha sendo preparada há um ano. Só do Brasil foram convidados e credenciados 725 pessoas, verdadeiros palpiteiros ou interessados em fazer daquele palco um objetivo eleitoral. Outros países enviaram uma representação bem menor, os mais importantes com 200 pessoas mais ou menos, o que já é demais.
Até governadores de Estado foram convidados. Para quê? Para ajudar a tumultuar e aparecer com fins políticos. Os gemidos do planeta, ninguém ouve. Mas isso também não é importante. O relevante é aparecer e dar palpites insinceros, hipócritas e falsos. O nosso presidente está, enganosamente, sendo ouvido por governantes importantes. Sim, ele fala, fala, mas aqui no Brasil, nós é que sabemos o ele faz, faz e faz. Legaliza o desmatamento, isenta de impostos diversos itens não essenciais para que haja incremento no consumo, última etapa de um processo industrial altamente prejudicial ao meio ambiente. Estimula os investimentos e procedimentos do desenvolvimento econômico. Tudo isso é o avesso dos objetivos da COP 15. A ministra Dilma, que não entende nada de recursos naturais, não teve momento falho quando disse que o meio ambiente é obstáculo ao desenvolvimento. Isso é exatamente o que ela pensa, pois está condicionada a que o desenvolvimento é muito mais importante que o meio ambiente. Assisti na TV um “cientista climatologista” dizer exatamente o mesmo. O Bush, quando na presidência dos EE.UU. fez a mesma afirmativa e foi honesto pela primeira vez. Não assinou o Protocolo de Kyoto dizendo que defender o ambiente é o mesmo que paralisar o desenvolvimento. Convenhamos, quando a pessoa só enxerga desenvolvimento e lucros, esse assunto de meio ambiente só serve para atrapalhar mesmo. Essas ações constituem processos antípodas. Os governantes atuais são incapazes de entender que tudo, mas tudo mesmo – até a vida humana –, no planeta Terra depende do equilíbrio ambiental, sendo este mais importante que o desenvolvimento. Pois é isso aí: há pessoas inteiramente cegas para o ecossistema. E, quando o indivíduo é cego, não pode chefiar uma delegação em reunião internacional de vesgos, principalmente quando tem objetivos eleitorais.
Pelo que estamos percebendo, a reunião de Copenhague é um circo montado para um faz-de-conta em que todos os governantes representam seus trejeitos de fantoche, presos a cordéis manejados à distância pela estrutura econômica, os verdadeiros donos do poder.
Recentemente, um diretor da Alcoa, conhecida mineradora de capital internacional, justificando as atividades de extração de bauxita em Juruti, Pará, disse que a empresa vai investir na região 80 milhões de reais que serão aplicados em saúde pública, instalações judiciárias, educação, capacitação profissional, combate a epidemias, infraestrutura urbana, saneamento básico. Isso é apresentado como benefício regional que a exploração mineradora verterá em compensação às devastações ambientais, devidamente autorizadas pelos órgãos federais, estaduais e municipais. É uma espécie de corrupção na engrenagem econômica dos governantes, pois tais vantagens são de responsabilidade constitucional dos governos. Se a entidade privada paga esses serviços, está havendo uma troca de favores em que a vítima é o indefeso meio ambiente. Este é apenas um exemplo entre diversos outros. Isso é uma ação concreta, real.
Paralelamente, os nossos governantes e ministros fazem belos discursos em Copenhague em defesa do ambiente. Como é que pode? Pode, sim. É que ação é ação e pronto. Palavras... o vento leva para bem longe. Já houve o tempo em que palavra valia muito. Hoje não vale absolutamente nada, principalmente de político.