sexta-feira, 7 de junho de 2013

O TEATRO DO ATENTADO DE BOSTON



Autor: Leonardo Boff

Precisaria ser inumano e sem sentido de solidariedade e compaixão não se indignar e não condenar o atentado perpetrado em Boston, com três mortos e centenas de feridos. Mas isso não nos dispensa de sermos críticos. Houve uma teatralização mundial do atentado com objetivos ocultos que devem ser desvendados. Atentados ocorrem muitos no mundo, especialmente no Afeganistão e no Iraque, na presença de tropas norte-americanas e aliados. Sempre com muitos mortos e centenas de feridos. Quase ninguém dá importância ao fato, já banalizado. Muitos pensam: Trata-se de terroristas ou gente próxima a eles, incômodos à ocupação ocidental. Mas, convenhamos, são seres humanos como aqueles de Boston. As medidas de avaliação são diferentes. Sabemos o porquê.

Precisamos estar atentos ao significado político-ideológico da espetacularização do atentado de Boston. É uma forma de desviar a atenção mundial de questões mais fundamentais: a primeira é o estado de terror que o Estado norte-americano está impondo a seus cidadãos e ao mundo inteiro. Com isso, atraiçoa o que de melhor tinha, a defesa dos direitos fundamentais.  Não fechou Guantánamo nem ratificou instrumentos internacionais importantes, como o Tratado de Roma, da Corte Penal Internacional, nem a Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José de Costa Rica). Não quer que as violações e atentados que seus agentes perpetram pelo mundo afora sejam levados àqueles tribunais.

Mas, pela ininterrupta ocupação da mídia a propósito do atentado, os “senhores do mundo” querem desviar a atenção da segunda questão, esta sim, de consequências funestas e que pode afetar a todos: a ameaça ao fim da espécie humana. Primeiro, esses “senhores” devastaram durante séculos o planeta, a ponto de ele não poder, sozinho, recuperar sua sustentabilidade. Em seguida, montaram uma máquina de morte que ameaça a vida na Terra e pode trazer o armagedon para a espécie humana.

Notáveis cientistas e os mais sérios teóricos da ecologia chamaram a atenção para essa ameaça real. Apenas não sabemos exatamente quando e como vai ocorrer. Mas, mantido o curso atual das coisas, ela será fatal. Depois de Hiroshima, Nagasaki e, agora, Fukushima, a humanidade descobriu a morte da espécie. Sim, como Gorbachev não se cansa de repetir, podemos destruir a espécie humana com as armas químicas, biológicas e nucleares que estocamos. Segurança? Nunca é absoluta. Lembremos Three Island, Chernobil e Fukushima.

Nossa espécie aprendeu a ser homicida (mata seus semelhantes), etnocida (quantos povos originários não foram liquidados?), ecocida (devastou ecossistemas inteiros) e agora pode ser especiecida (leva a própria espécie ao suicídio).

O sistema vive buscando bodes expiatórios (antes eram os comunistas, agora os terroristas, quem mais?) sobre os quais recai o desejo mimético e coletivo de vingança. E assim se autoexime de culpas e erros. Mas principalmente faz de tudo para que essa ameaça letal sobre a espécie humana não seja lembrada e se transforme numa consciência mundial perigosa.

Ninguém aceita passivamente um veredito de morte. Vai lutar para garantir a vida e o futuro comum. Esse deveria ser o objetivo de uma governança global, que exige a renúncia de uma vontade imperial que só pensa em sua perpetuação, em vez de pensar no bem comum da mãe-Terra e da humanidade.

Fonte: jornal “O Tempo”         

1 Comentários:

Às 7 de junho de 2013 23:54 , Blogger Silvia Mendes disse...

muito interessante! Silvia(sabores da roça)

 

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