sexta-feira, 27 de maio de 2011

A ERA DE ASSALTOS

Já tivemos o Período Jurássico, a Era Glacial, o Século de Péricles, a Época Medieval, a Dinastia Carolíngia, a moda do chapéu; agora estamos nos tempos modernos: a Era dos Assaltos.

Essa   ação  violenta sempre existiu nas relações informais dos humanos, mas atualmente alastrou-se potencialmente, institucionalizando-se no  país, naturalmente com o beneplácito dos governos. A criatividade dos valentes partidários da força bruta chega ao ponto de, aparentemente, inverter o objetivo da ação, oferecendo vantagens e benefícios às vítimas, numa demonstração eloqüente da eficiência da psicologia aplicada, manipulada para fins de enriquecimento.  

        Num dia da semana passada, fui assaltado. Estava  andando tranqüilamente no centro da cidade, quando se aproximou um cidadão muito bem vestido, bem penteado, usando terno com talho de última moda, gravata de seda, sapatos bico fino e bem engraxados, numa aparência geral de figurino de revista ou manequim de loja. Abordou-me, pedindo licença para me falar, empregando palavras polidas e com entonação educada. Manifestou-se mais ou menos assim:

        — Cavalheiro, permita-me merecer sua atenção por um momentinho. Você não está vendo, mas estou lhe apontando uma arma engatilhada, como pode concluir pela posição da minha mão no bolso do paletó. Peço apenas que não se assuste, mantenha a calma e controle, que tudo ficará bem para você. Tenho uma ótima proposta a lhe fazer. É meu desejo que me passe todo o dinheiro, créditos a receber, direitos, documentos, relógio, anéis e demais bens que estejam em seu poder. Além desses bens, você possui outro muito valioso, mas que para mim não vale nada: sua vida. Ela está pendente apenas pela mola que aciona o cão de minha arma. Preste bastante atenção, que lhe vou fazer uma proposta muito atrativa. Com um simples pagamento de R$10,00, de livre e espontânea vontade, você fica inteiramente desobrigado deste e de qualquer outro assalto de minha parte. Quero realçar que a vantagem para o cavalheiro é muito grande, pois fará uma grande economia e terá, inteiramente grátis, um seguro de vida garantido pela minha pistola.

       Paguei, fiquei muito satisfeito, fiz um grande negócio, continuo vivo e livre para registrar fatos da Era dos Assaltos.

       Mas não relatei os pormenores do acontecido. Naqueles momentos de aflição tive uns instantes de reflexão e mantive diálogo com o personagem. Perguntei por que não tinha rosto.

       — Não tenho individualidade; estou aqui agora, mas posso estar em qualquer lugar ao mesmo tempo. Possuo milhares de réplicas no país às quais o povo ingênuo chama de agência.

       Desconfiado, quis saber seu nome.

       — Meu nome é genérico. Todos me conhecem, mas ninguém me conhece. O povo me chama de Banco, mas não sou banco. Sou um assaltante moderno. Até breve!

       Aliás, mudando de assunto, ultimamente os Bancos estão oferecendo uma grande vantagem aos seus usuários. Com uma simples contribuição fixa mensal – digamos de R$10,00 – desobrigam-nos  do pagamento daquele rosário de tarifas que o Banco Central autorizou.

       É aquela velha questão:

       — Você quer perder uma mão para não perder o braço?

       — Quero sim, senhor!







      


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