sábado, 24 de julho de 2010

ANTROPOCENTRISMO

A Natureza registrou nos genes de cada espécie animal todos os comportamentos necessários à sobrevivência, que se manifestam inconscientemente no momento adequado e necessário. A isso se dá o nome de instinto. A lista desses códigos varia segundo a espécie, como modo de distingui-la de outra e manter, em princípio, a pureza biológica.

Os humanos também possuem esse ordenamento básico. A manifestação desses atributos genéticos nos humanos geralmente é conhecida pelas suas variantes: pulsão, intuição, inspiração, índole, aptidão, caráter, pendor, altruísmo, compaixão e outras. O conjunto de tais qualificações move ações e estabelece uma diferenciação individual, tal como suas feições faciais.

Entre essas condicionantes genéticas, destacamos a que impele o indivíduo a não agredir ou mesmo querer proteger os infantes de sua própria espécie. Uma onça pintada ataca e se alimenta de filhotes de outros animais, mas não dos da própria estirpe. Essa atitude e outras consentâneas, no seu conjunto, são chamadas de instinto de sobrevivência da espécie. O comando instintivo induz a onça a preservar a linhagem a que pertence o que constitui uma atitude plena de coerência. Para melhor entendimento, chamaríamos a essa faceta instintiva de “onçacentrismo”, isto é, um tipo de egoísmo de espécie, caráter inerente a toda a categoria animal. Pensaria uma onça, com justa razão: “tudo se justifica em benefício da onçanidade; as outras espécies existem exclusivamente para nosso proveito”.

A convivência de indivíduos de classes diferentes, desde a infância, desenvolve uma forte empatia recíproca, tornando-os amigos. Isso é possibilitado pela ausência daquele instinto na infância, que somente sobressai após aquele estágio primário. Mas essa anulação de instinto se dá apenas com relação ao indivíduo-amigo, prevalecendo na maturidade o egoísmo de espécie, ou exclusividade de um grupo em relação às demais classes.

Os humanos, quando se comportam de forma a afirmar sua individualidade com exclusão de outros, esse procedimento é chamado de egoísmo, uma atitude condenável aos interesses dos demais componentes do grupo. O antropocentrismo é o mesmo egoísmo, mas se manifesta em relação à espécie e influencia negativamente toda a sociedade biológica, inclusive a própria categoria humana. E o pior: não a deixa enxergar os danos causados ao essencial equilíbrio do ecossistema, o que podemos traduzir como suicídio lento.

Numa situação de existência ideal e equilibrada, essa mola propulsora ajudaria a coordenar a normalidade nos mecanismos ambientais. Mas, com o advento do fenômeno do crescimento excessivo de humanos e aceleração de suas ações destrutivas, em escala geométrica, o salutar equilíbrio ambiental foi quebrado. Isso é extremamente prejudicial aos outros seres vivos, nossos irmãos da flora e fauna, que habitam o mesmo planeta.

Tal situação representaria o mesmo desequilíbrio vivencial se o mundo se visse ante a população faminta e exigente de 6,7 bilhões de ursídeos. E eles somente pediriam alimento e espaço. Imaginem se eles exigissem automóveis, aviões, cidades, confortos, produtos supérfluos e tudo o mais que os humanos tanto desejam e incorporam à sua vivência como itens “necessários”?

Numa simples amostra, felizmente localizada e reduzida na área e no tempo, é do conhecimento geral a ocorrência eventual de superpopulação de gafanhotos que, na ânsia de se alimentarem arrasam tudo o que é comível em seu caminho.

Na linguagem da civilização predatória em que estamos inseridos, as atitudes provenientes do instinto exclusivista humano são tidas como corretas e legítimas, como se pode perceber em cenas de matadouros de animais para retirada de peles para enfeite humano; de glândulas sudoríparas para fabricação de perfumes; de matanças covardes sob justificativa de esporte, e outras barbaridades que, a bom juízo, convulsionam e desequilibram todo o ecossistema e nossas qualificações espirituais. São tidas como normais também atitudes de assistência médica para prolongar vidas humanas indistintamente, sob o impulso inconsciente do antropocentrismo. Até criminosos – escória viva que comete ações absurdas de morte a pais, mães e crianças inocentes por motivos vis – quando feridos são transportados para hospitais no afã de serem salvos.

O comportamento de corporação constitui uma forte variante subconsciente de exclusivismo de classe. Como exemplo, vemos a livre manifestação desse dominador genético nas contendas futebolísticas, quando o indivíduo passa a extravasar ódio ao antagonista, ao ponto de cometer atos agressivos e insanos para lhe tirar a vida.

Esse exclusivismo genético, na forma de instinto condutor, já foi muito útil quando os humanos eram poucos nos tempos primitivos e lutavam para sobreviver como espécie. Hoje, com excesso superlativo e absurdo de quantidade e ações humanas, esse atributo se tornou prejudicial em todos os seus aspectos, seja no campo social, religioso, econômico e, essencialmente, no ambiental. Tornou-se altamente impeditivo para que a razão possa livremente se manifestar e nos conduzir pelo rumo adequado.

Nos humanos, o exclusivismo de espécie ora se apresenta como inconsciente, ora como subconsciente. Quando neste último aspecto, a razão nos proporciona condições de trazê-lo para o consciente, tornando-o perceptível e sujeito a análise crítica, o que torna mais clara e justa a visão de conjunto.

Quiséramos que essa força interna se aflorasse à humanidade para que ela tomasse a necessária consciência ambiental que ameaça a Vida. Mas, como a linguagem vivencial dominante é a dos interesses econômicos materialistas, temos que atingir aquele objetivo por meio das argumentações ecológicas fundamentadas. As pregações emocionais virão tardiamente: quando os fatos se expuserem irreversíveis, como a subida do nível dos oceanos e conseqüente destruição de obras da atual civilização; quando o clima mundial se manifestar furiosamente com os poderosos recursos de que dispõe, cujas conseqüências convencem qualquer mente, por mais inerte que ela seja.

Devemos pôr em evidência que o instinto do exclusivismo de espécie (antropocentrismo) deve ser ignorado pelo comando do senso mental a fim de adquirirmos a capacidade de enxergar a realidade. Devemos ter a razão liberada para, na reflexão, retirar de nossa visão o tapume antropocentrista que nos impede de perceber a verdadeira e real posição do ser humano no planeta.

Algo de grande sabedoria deve ocorrer com os lemingues, pequenos animais da família dos roedores e que habita o círculo polar norte. Eles não possuem predadores e têm fartura de alimentos. No entanto, quando percebem que sua população está muito crescida, grande parte deles se joga nos precipícios de beira-mar, em holocausto ao sadio equilíbrio populacional. Seriam eles animais filósofos?

A eliminação mental do antropocentrismo abre caminho para que os ambientalistas superficiais passem a perceber, com profundidade, os diversos aspectos do problema. Isso aclarará a mente para que possam entender quão frágeis são seus conselhos para economizar água, eletricidade, embalagens plásticas e outras insignificâncias. Esses ambientalistas vêem a degradação ambiental como minúsculo incêndio que pode ser apagado com pequenas colheradas de água. Ainda não perceberam que estamos frente à beira do precipício e que o incêndio total se aproxima pelas costas.

Livrem-se do antropocentrismo quando meditarem sobre os assuntos pertinentes ao nosso meio ambiente. Sejam justos em seus julgamentos.

1 Comentários:

Às 28 de julho de 2010 17:52 , Anonymous ira disse...

Ola Maurício.
Foi postado dia 24 e no final copiei da dita.

Esses ambientalistas vêem a degradação ambiental como minúsculo incêndio que pode ser apagado com pequenas colheradas de água. Ainda não perceberam que estamos frente à beira do precipício e que o incêndio total se aproxima pelas costas.

É isso Maurício,o que se aproxima não é só incendio total,é hecatombe
e provocado por cataclismo geológico global.
Estamos as vésperas de grandes mudanças,e são cíclicas.
Só que não existe a necessidade de apressar-mos estes eventos.
Mas,é como voce diz na postagem,tem muitos pensando bem pequeno.
Enfim,mais uma vez a moeda e a ganancia humana cavam suas própris sepulturas,se houver tempo para tal.

 

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