domingo, 18 de março de 2012

UM ÓTIMO LUGAR

Autor: Montserrat Martins

[EcoDebate] Tentei fugir do carnaval e fui vencido, até no paraíso natural que é Águas de Lindóia (a água que a NASA bebe) tinha funk por tudo, implacável. Entre montanhas, matas, cachoeiras, onde se poderia se ouvir o som dos pássaros, do vento ou das águas, lá vinha aquela batida constante, nos carros passando com o som a todo. Bem que um prefeito desse vasto interiorzão do país podia decretar uma “cidade livre de poluição sonora”, um atrativo turístico – como dizem na lógica do mercado, ia ‘fazer a diferença’. Já meu filho Marcelo, de 17 anos, prefere a bagunça do carnaval, gosta de funk e não tá nem aí pro som alto, ele tem uma teoria de que as novas gerações nascem com a audição adaptada e até sentem falta do barulho das cidades.

Mesmo assim, há um certo desperdício nessa “uniformização da cultura” que impõe a todo mundo ouvir carros gritando batidas quase iguais, com letras sem qualquer resquício de sutileza. Deve ser sintoma de velhice, tá na hora de eu assumir a palavra na sua plenitude como escreveu esses dias a Eliane Brum: eu me rendo, acuso a idade. Uma cidade turística pros velhinhos, então.

Gosto de coisas autênticas, vejo desperdícios de vocações. Mesmo não sendo a minha praia consigo me imaginar apreciando um baile funk num morro carioca, onde ele surgiu e tem a ver com a vivência das pessoas, a cultura local. Nos carros que tocam só pra impressionar os outros não há nada de espontâneo, é só jogo de cena, quer dizer, o que me incomoda mesmo são os “pseudo-funkeiros” estridentes. O que eles tem a ver com o modo de viver lá do norte de São Paulo, divisa com Minas Gerais ? Onde as pessoas no dia a dia preferem a música sertaneja, ou a moda de viola mineira, bem mais melódicas e pacatas como o ritmo de suas vidas. Mas onde se ouve também música dance (com o tuc-tuc padrão da batida americana) até nos recantos das cachoeiras, ao invés do som da queda d’água.

O mote da música é só um exemplo dentre milhares de desperdícios de vocações país afora, de não aproveitarmos as melhores possibilidades de cada região, envolvidos que estamos numa globalização automática, compulsória, impensada. Mudando de exemplo, uma vez os japoneses nos deram de presente uma ferrovia. Sabem para que ela servia ? Para transportar minérios de ferro do interior até um porto, no nordeste, de onde seguia de navio para o Japão. Ouvi de um grande empresário que já trabalhou na região Norte um lamento pela devastação causada por Belo Monte, que segundo ele servirá para levar nossos minérios também, a preço de banana, para o exterior. Me chamou a atenção ouvir isso de um empresário e não de um ambientalista, quer dizer, veio de alguém que sabe dar valor aos bons negócios. Para ele é um desperdício de recursos naturais porque grande parte da energia produzida será consumida na própria região, pelas mineradoras, e as modificações estruturais na região farão dela uma “porta aberta” para a exploração colonial. Ouvi tudo isso há uns dois anos, antes do filme Avatar ou das campanhas que hoje existem na rede alertando sobre Belo Monte – contra as quais foi lançada agora a propaganda oficial, com “palavras de ordem” repetindo na TV o discurso da pretensa “sustentabilidade” da obra.

O século XXI é diferente de todos os outros porque podemos não sair dele vivos; diz a profecia científica que “as baratas herdarão a Terra”. Não temos como nos dar ao luxo de errar tanto com nossos recursos naturais como foi feito no século passado pela Europa – que só depois de destruir sua natureza descobriu o conceito de desenvolvimento sustentável. Lugar de hidroelétrica não é na floresta, onde gera metano. O que nos lembra que no Brasil tudo está por ser feito em termos de civilização, olhe o que acontece no caso do Pinheirinho, onde leis que não consideram a função social da propriedade são usadas burocraticamente por poucos, de modo insensível, contra as necessidades da maioria.

Quando vemos a falta de controle sobre a corrupção e o crime organizado, começando pela absoluta falta de leis específicas capazes de enfrentá-los, a explicação está na “sacada” do Luís Fernando Veríssimo, quando nos lembra em uma única frase que ainda não somos uma nação, somos um belo território a ser civilizado: “O Brasil é um ótimo lugar para se fazer um país”.

Montserrat Martins, Colunista do Portal EcoDebate, é Psiquiatra.

Fonte: EcoDebate

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