sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

LINGUAGEM DO SISTEMA EM QUE VIVEMOS

Eu sou bancário. Eu sou motorista. Eu sou balconista. Eu sou jornalista. Eu sou estoquista. Eu sou comerciante. Eu sou industrial. Eu sou.... e assim por diante.
Todos estão integrados a um sistema social que, atualmente, é o econômico. Sem perceberem, estão condicionados à linguagem comportamental vigente. Tal como nos comunicamos pela linguagem oral materna. Sem examinarem a questão a fundo, raciocinam, agem, e vivem ao compasso desse sistema. É como se houvesse uma linguagem social sedimentada desde o nascimento. É a linguagem cultural, que guia nossos passos, comanda nossas aspirações, marca o ritmo social. São essas condicionantes que constroem as leis e dizem o que é normal ou marginal. A preservação dos recursos naturais não consta do rol de suas preocupações.

Essa linguagem é tida como tão natural que não se dão conta de que podem existir outras condutoras estruturais para a sociedade. Espantam-se e não compreendem as ações de outrem, tal como ocorre a uma criança quando ouve diálogo em língua diferente da que usa. Ninguém se questiona sobre a possibilidade da existência de outra linguagem vivencial. Espanta-me quando leio alguma crítica sobre os procedimentos sociais de alguma teocracia ou de povos aborígines. Culturas diferentes não podem ser mutuamente criticadas. É preciso que cada lado leve em consideração esse caldo de linguagem em que os povos vivem. Muitas dessas culturas giram em torno de uma cosmovisão antropocêntrica.

A palavra linguagem, aqui, é inadequada no seu verdadeiro significado. Empregamo-la, figurativamente, para destacar que o sistema econômico em que todos estamos inseridos funciona como um se fosse um referencial único e correto. É o paradigma da vida em sociedade. Passa a ser um estado de consciência permanente, em função do qual o homem pensa e age. Seria como a água para os peixes. Fica sendo tão natural para eles respirarem o oxigênio da água que ficam incapacitados de entender como podem viver seres fora desse meio.

Existem outros sistemas, fora dessa linguagem dominante, a que não damos a devida atenção, mas que servem perfeitamente de exemplo e indicação de que é possível alterar o sistema vigente:

a) a linguagem social imperante dentro da família, formada pelo pai, a mãe e filhos. Esse ambiente propicia condições para que os relacionamentos se façam de forma própria, exclusiva, sem a pressão dos esquemas sociais egoísticos. As individualidades agem e se condicionam em função do todo familiar;

b) a que prevalece numa comunidade religiosa, seja num mosteiro, num convento, ou numa coletividade ideológica. Ali vivem segundo um código próprio, particular, exclusivo. E se entendem muito bem, pois suas mentes são equalizadas pela crença ou ideologia com vistas a um bem uno;

d) a usada em reuniões de dirigentes corporativos ao tratar de seus procedimentos ou objetivos econômicos. Esclarecendo melhor esse aspecto, além de servir de exemplo, eles decidem implantar uma revolta militar sangrenta para derrubar um governo e saem candidamente da reunião para o convívio amoroso da família. Esse caldo de vivência lhes parece tão normal que eles próprios, identificados como os agentes da destruição dos recursos naturais, não conseguem entender as motivações ambientalistas. Eles têm uma fé inabalável na perenidade da riqueza individual e só conhecem essa linguagem. No âmbito da vida humana, isso tudo não é mais do que o objetivo sem objetivo.

Mesmo alguns ambientalistas, tal como os fanáticos de todas as espécies, ainda não foram capazes de perceber que os humanos estão aprisionados mentalmente a um contexto, a uma linguagem civilizacional. Não conseguem enxergar a amplidão da liberdade vivencial e se vêm aprisionados pelas condicionantes da cultura e do antropocentrismo.

Há outras linguagens, outros viveres. Basta citar os silvícolas não contatados, ainda não impregnados pela modernidade desagregadora. Eles, na vivência simples, natural, têm o conjunto ambiental como parte integrante das concessões que lhes fazem o criador, em suas crenças cosmogônicas.

A alteração para uma linguagem compatível com o meio ambiente somente se dará com uma revolução mental de todo o sistema civilizacional vigente. Pontos fundamentais dessa mudança: abandono do egoísmo humano, visão ecológica, governo mundial e afrontamento demográfico.

4 Comentários:

Às 13 de fevereiro de 2010 11:41 , Blogger ira disse...

Mauricio,
no final de sua postagem está a frase
(abandono do egoísmo humano).
Impérios cairam e cairão ate que esta frase possa ficar sentrada na razão humana,isto é,que ele entenda que aquí somente está de passagem como se fosse um passageiro em uma condução qualquer.
Ate la ............
Quem entender que só está terrestre,
melhor,quem pensar que é terrestre
é porque ainda é pequeno,não despertou para a RAZÃO DA ESSÊNCIA.
que se pode fazer,este é um conceito evolucionári imutavel.
O CORRETO NÃO É VER PARA CRER,
MAS SIM CRER PARA VER.
O remédio só aparece quando o doente está pronto para recebe-lo.
Um abraço
ira

 
Às 13 de fevereiro de 2010 11:57 , Blogger ira disse...

Maurício,
evidentemente devo complementar o comentário.
ÓTIMA A POSTAGEM
O MUNDO ATUAL COM MEIA DÚZIA DE PENSAMENTOS ASSEMELHADOS E ESTARIAMOS
VIVENDO NO PARAISO TERRESTRE.
MAS,COMO SEMPRE PENSO,
ATE LA ...........

ABRAÇO
ira

 
Às 19 de fevereiro de 2010 08:27 , Blogger L Janz disse...

Caro Maurício.

Achei o teu texto excelente. Uma crítica poderosa porque, sem dúvida nenhuma, baseada numa visão mais profunda da realidade.

Estamos ainda, infelizmente, presos a grande maioria de nós, numa dinâmica mental antropocêntrica, e por isso mesmo, ultrapassada...

Esta situação medonha ainda tende a perdurar por bastante tempo, tão longe cada ser-humano não se veja conectado e interdependente com GAIA.

Forte Abraço, Léojanz.

 
Às 19 de fevereiro de 2010 11:38 , Blogger Maurício disse...

Caro Janz,
Agradeço seu comparecimento neste blog ambientalista. A propósito, convido-o à leitura ou cópia do meu livro "Agora ou Nunca Mais", publicado em e-book gratuitamente pelo link a seguir:
http://www.ecodebate.com.br/pdf/agora_ou_nunca_mais.pdf

 

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