sexta-feira, 4 de novembro de 2011

LEVANDO VANTAGEM EM TUDO

Autor: Eduardo Gusmão Soares, Filósofo e Psicólogo

 Vivemos em uma terra de espertos. Mas isso não é bom. Não é uma esperteza solidária, em prol da comunidade ou de um projeto que trará algum progresso. E sim mesquinha, egoísta, individualista. E no meio do “salve-se-quem-puder” aqueles que tentam fazer as coisas corretamente acabam prejudicados. Num país onde todos querem levar vantagem sobre o próximo, vivemos numa eterna e feroz competição de rasteiras e poucos de nós conseguem ficar de pé.

Em um exemplo para começar, temos que boa parte de população não paga impostos. Não estou falando em atrasar. Estou falando em não pagar. Nunca. Eu e você, bons cidadãos, pagamos para compensar esta sonegação criminosa. Mas outros exemplos do dia-a-dia são ainda mais triviais e inacreditáveis.

Quantos não andam pelo acostamento? Afinal, a pressa deles é mais importante que a sua, que ficará parado no trânsito caótico das cidades. Quantos não param no meio da rua para pegar o filho na escola ou outra coisa qualquer, afinal a pessoa é mais importante que você e todos deverão aguardar que ela termine o que está fazendo para continuar. Temos, ainda, outros exemplos de espertos que arriscam até a vida! Quantos bebem e saem dirigindo, contando com dicas de amigos e de sites para evitar a fiscalização da “Lei Seca”? O “esperto” conseguirá burlar uma lei feita para protegê-lo e, de quebra, arriscará a vida de inocentes.

Apenas para citar alguns exemplos repulsivos, que nos dão vergonha de sermos brasileiros, vamos citar alguns casos.

Em um deles, alunas ricas moradoras de casas em bairros  nobres e que iam para a universidade com carro do ano, fraudaram a seleção de bolsas de estudo Pro Uni para conseguir bolsas integrais de estudo. Estas bolsas beneficiariam alunos pobres que não podem pagar uma universidade. Espertas como só elas são, as alunas usaram familiares em cargos importantes dentro da universidade para conseguirem, de maneira criminosa e desrespeitosa, uma     vantagem que destruiu a chance de alguém necessitado de cursar aquela universidade.

O comando da Polícia Militar de Alagoas informou que descobriu um esquema de fraude ao programa Bolsa Família envolvendo praças     e oficiais da corporação. Em nota oficial, a PM-AL afirma ter uma lista     com 34 nomes de militares beneficiados pelo programa federal, que deveria atender apenas às famílias de baixa renda.

Alguns vereadores e secretários espertos também recebem o Bolsa-Família! Levantamento feito pelo Estado de Minas mostra que, só no  ano passado, mais de 1,3 mil funcionários públicos municipais receberam o benefício destinado à população pobre.

Não bastasse a desgraça e a morte de parentes, vítimas de     catástrofes naturais ainda são assaltadas por aqueles que deveriam   ajudá-las. Sabe como é… doação, material farto e fácil para os espertos. Dois homens foram presos em flagrante sob suspeita de desviar um caminhão carregado com doações para as vítimas     das chuvas na Região Serrana do Rio de Janeiro. As informações     foram confirmadas pela Polícia Militar.

Os exemplos não param, todos sabemos. Surge a cada dia uma lista que nos envergonha, principalmente no cenário político. Deveríamos repreender parentes e amigos que praticam este tipo de desserviço à sociedade. Levar vantagem pisando sobre os outros não nos torna boas pessoas, tampouco traz consigo a sonhada prosperidade e progresso. Muito pelo contrário. Todos perdem, todos pagam o preço dos que insistem em desviar do caminho correto.

Vivemos num país onde passar a perna, levar vantagem e conseguir privilégios graças a um “jeitinho brasileiro” são coisas louváveis. Pobres de nós, brasileiros. Mentes pequenas, atarracadas, dignas do terceiro mundo, dignas do atraso em que vivemos e que perpetuamos. Olhamos para o primeiro mundo com inveja, mas nos esquecemos de que todos os problemas daqui começam nos nossos próprios atos.

Particularmente, não acho que deveríamos ser todos totalmente corretos. Quem não tem um MP3 no computador? Quem nunca fez uma conversão ou manobra proibida no trânsito para poupar tempo? Como no mundo selvagem, tem hora que precisaremos nos virar da maneira que for para benefício próprio. Ainda assim, há deslizes graves que atravancam nossa evolução enquanto civilização e são estes que, primeiro, precisamos enfrentar. Pior é quem faz da “Lei de Gérson” um modus operandi. Pessoas que vivem em função de trapacear e levar vantagem sobre outros.

Na nossa cultura, o cara que consegue fazer uma ligação clandestina para ter TV fechada gratuitamente, não só  sente orgulho disso como expõe isso com entusiasmo para amigos e parentes e ainda é cumprimentado! “Puxa, como você fez?”, perguntam os outros admirados por não serem tão espertos. O garçom erra a conta e cobra a menos? Se você pedir para corrigir, você é rotulado como otário. “O problema é do garçom que errou!” vão reclamar raivosos aqueles que tiverem que rachar a conta com você.

Você entrou na carreira pública? Consegue comprar um atestado médico para ficar semanas ou meses sem trabalhar? Você será ovacionado por amigos e parentes como um cara esperto, que sabe aproveitar as oportunidades da vida. Você não estudou, mas conseguiu colar toda a prova daquele cara inteligente? Uau! Você será coroado como o cara mais legal e sagaz da escola! Conseguiu um cargo público? Hora de dar emprego para todos aqueles amigos e parentes, além de embolsar aquela verba que ninguém vai perceber que sumiu. Nossa... como você é bom, não é mesmo? Mas... a que preço?

Enquanto enaltecermos este tipo de conduta lesiva à comunidade, manteremos corruptos em nossos governos. Teremos policiais prevaricando. Pagaremos impostos cada vez maiores. Cobrarão de nós softwares que custam 10x o preço original. Arcaremos com um custo excessivo em serviços como televisão paga, internet, água, luz e outros. Afinal, que país queremos construir? Queremos um dia ser primeiro mundo? Precisamos nos comportar como primeiro mundo então. Isso não é uma análise apenas moral da situação. É pragmática, objetiva. Se todos trabalharem para que todos melhorem de vida, guardadas as devidas proporções dos méritos a serem concedidos a cada um, nossa tendência é subir a ladeira do progresso.

Lembro um documentário onde um estrangeiro falava que para o pedágio em seu país bastava apenas depositar uma moeda numa caixa e ir embora. Não tinha cobrador, nem guarda olhando. O brasileiro (que veio da cultura dos “mais espertos”) perguntou por que o estrangeiro não passava direto pelo posto de coleta sem pagar. O estrangeiro sequer conseguiu entender porque deveria fazer isso e perguntou incessantemente, com cara de quem não está entendendo nada: “Mas por que eu não deveria pagar se estou usando?”.

Se um dia a maioria dos brasileiros começarem a pensar como aquele estrangeiro, que entende que a coletividade precisa ser beneficiada para que ele próprio possa usufruir de um país melhor, daí então seremos primeiro mundo, ainda que muitos passem fome. Entenderemos como é fácil resolver problemas que vão desde a corrupção sistemática no governo até as grandes quadrilhas de traficantes. Veremos como nossos impostos podem sim fazer muito por nós. Poderemos pagar menos por serviços ainda melhores. Enfim, viveríamos numa sociedade civilizada, avançada, boa para todos. A mudança por um mundo melhor começa nos pequenos atos de cada um. Você, meu caro cidadão brasileiro, está fazendo sua parte?

Fonte: Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com

                                  Fabioxoliveira.blog.uol.com.br/








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