sábado, 17 de setembro de 2011

CONTRIBUIÇÃO DA AMÉRICA LATINA PARA UMA GEOSOCIEDADE

Leonardo Boff, Teólogo e Filósofo

Por todas as partes no mundo cresce a resistência ao sistema de dominação do capital globalizado pelas grandes corporações multilaterais sobre as nações, as pessoas concretas e sobre a natureza. Está surgindo, bem ou mal, um design ecologicamente orientado por práticas e projetos que já ensaiam o novo. A base é sempre a economia solidária, o respeito aos ciclos da natureza, a sinergia com a Mãe Terra, a economia a serviço da vida e não do lucro e uma política sustentada pela hospitalidade, pela tolerância, pela colaboração e pela solidariedade entre os mais diferentes povos, demovendo destarte as bases para o fundamentalismo religioso e político e do terrorismo que assistimos nos EUA e agora na Noruega.

Entre muitos projetos existentes na América Latina como a economia solidária, a agricultura orgânica familiar, as energias alternativas limpas, a Via Campesina, o Movimento Zapatista e outros queremos destacar dois pela relevância universal que representam: o primeiro é o “Bem Viver” e o segundo a “Democracia Comunitária e da Terra”, como expressão de um novo tipo de socialismo.

O “Bem Viver”está presente ao longo de todo o continente Abya Yala (nome indígena para o Continente sul americano), do extremo norte até o extremo sul, sob muitos nomes dos quais dois são as mais conhecidos: suma qamaña (da cultura aymara) esuma kawsay (da cultura quéchua). Ambas significam: “o processo de vida em plenitude”. Esta resulta da vida pessoal e social em harmonia e equilíbrio material e espiritual. Primeiramente é um saber viver e em seguida um saber conviver: com os outros, com a comunidade, com a Divindade, com a Mãe Terra,com suas energias presentes nas montanhas, nas águas, nas florestas, no sol, na lua, no fogo e em cada ser. Procura-se uma economia não da acumulação de riqueza mas da produção do suficiente e do decente para todos, respeitando os ciclos da Pacha Mama e as necessidades das gerações futuras.

Esse “Bem Viver” não tem nada a ver com o nosso “Viver Melhor” ou “Qualidade de Vida”.O nosso Viver Melhor supõe acumular meios materiais, para poder consumir mais dentro da dinâmica de um progresso ilimitado cujo motor é a competição e a relação meramente de uso da natureza, sem respeitar seu valor intrínseco e sem se reconhecer parte dela.  Para que alguns possam viver melhor, milhões têm que viver mal.

O “Bem Viver” não se identifica simplesmente com o nosso “Bem Comum”, pensado somente em função dos seres humanos em sociedade, num antropo e sociocentrismo inconsciente. O “Bem Viver” abarca tudo o que existe, a natureza com seus diferentes seres, todos os humanos, a busca do equilíbrio entre todos também com os espíritos, com os sábios (avôs e avós falecidos), com Deus, para que todos possam conviver harmonicamente. Não se pode pensar o “Bem Viver” sem a comunidade, a mais ampliada possível, humana, natural, terrenal e cósmica. A “minga” que é o trabalho comunitário, expressa bem este espírito de cooperação.

Essa categoria do “Bem Viver” e do “Viver Bem” entrou nas constituições do Equador e da Bolívia. A grande tarefa do Estado é poder criar as condições deste “Bem Viver” para todos os seres e não só para os humanos.

Esta perspectiva, nascida na periferia do mundo, com toda sua carga utópica, se dirige a todos, pois é uma tentativa de resposta à crise atual. Ela poderá garantir o futuro da vida, da humanidade e da Terra.

A outra contribuição latino americana para um outro mundo possível é a “Democracia Comunitária e da Terra”. Trata-se de um tipo de vida social, existente nas culturas da Abya Yala, reprimida pela colonização mas que agora, com o movimento indígena resgatando sua identidade, está atraindo o olhar dos analistas. É uma forma de participação que vai além da democracia clássica representativa e participativa, de cunho europeu. Ela as inclui, mas aporta um elemento novo: a comunidade como um todo; esta participa na elaboração dos projetos, de sua discussão, da construção do consenso e de sua implementação. Ela pressupõe já uma vida comunitária estabelecida na população.

Ela se distingue do outro tipo de democracia por incluir toda a comunidade, a natureza e a Mãe Terra. Reconhecem-se os direitos da natureza, dos animais, das florestas, das águas, como aparece nas constituições novas do Equador e da Bolívia. Faz-se uma ampliação da personalidade jurídica aos demais seres,especialmente à Mãe Terra. Pelo fato de serem vivos, possuem um valor intrínseco e são portadores de dignidade e direitos e por isso são merecedores de respeito.

A democracia será então sócio-terrenal-planetária, a democracia da Terra. Há os que dizem: tudo isso é utopia. E de fato é. Mas uma utopia necessária. Quando tivermos superado a crise da Terra (se a superarmos) o caminho da Humanidade seria este: globalmente nos organizarmos ao redor do “Bem Viver” e de uma “Democracia da Terra”, da “Biocivilização” (Sachs). Já existem Sinais antecipadores deste futuro.

Fonte: Fábio Oliveira – fabioxoliveira2007@gmail.com

                                  Fabioxoliveira.blog.uol.com.br/
















4 Comentários:

Às 20 de setembro de 2011 10:15 , Blogger ira disse...

Ola Maurício.
Meu caro,quando houver de fato uma vontade maior em aplicar o socialismo REAL,então a humanidade estará apta a se elevar ou evoluir.
Mas,bem claro,o SOCIALISMO REAL,não o politiqueiro dos corruptos de partidos e sociologistas de antanho,isso está cheio no Brasil e restante do mundo.
Do socialismo;
[Do fr. socialisme.]
S. m.
1. Doutrina que prega a primazia dos interesses da sociedade sobre os dos indivíduos, e defende a substituição da livre-iniciativa pela ação coordenada da coletividade, na produção de bens e na repartição da renda.
2. Sistema político que adota essa doutrina.

É bom notar que existe um contra senso no que se encontra no que quer dizer socialismo,ele é tão visivel que qualquer cérebro acaba dando um nó.
Percebeu ???Ou só eu entendo assim ???
AÍ ESTÁ===defende a -substituição da livre-iniciativa- pela ação coordenada da coletividade.
Isso é um paradóxo.
Por tudo que se entende como sociedade (o conjunto ou o todo)aí está a iniciativa ou livre iniciativa e ela só pode partir do seio desta sociedade(do conjunto).
NÃO EXISTE PENSAMENTOS EXATAMENTE IGUAIS ENTRE HUMANOS,então tem que haver a iniciativa de um, dentro deste universo humano que,comece algo em beneficio da tal coletividade.
PARADÓXO OU ÓBVIO ULULANTE ???

 
Às 20 de setembro de 2011 10:19 , Anonymous Luana Pires disse...

Galera, vamos acompanhar a discussão do novo código florestal no Congresso Nacional. Vamos mostrar para o mundo que nós cidadãos brasileiros consiguimos lutar por nossas florestas e a devida preservação para casar o desenvolviemnto economico com o respeito ao meio ambiente.

 
Às 23 de setembro de 2011 12:04 , Blogger antonio disse...

Interessante a matéria. Outra coisa que devemos ficar de olho é na votação do código florestal no Congresso.

 
Às 23 de setembro de 2011 15:24 , Blogger Math@26 disse...

vc aceita parceria?
Se sim comente em meu blog e diga que aceita e seu link.

vidaverdeja.blogspot.com

 

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