terça-feira, 18 de dezembro de 2012

17 FEVEREIRO DE 1.600

Autor: Jorge Angel Livraga Rizzi, Filósofo
Talvez ao leitor não lhe diga nada esta data, mas é, na verdade, uma das mais representativas da presente civilização. No final do século XVI da Era Cristã, vivia um estranho filósofo que, como os seus antigos colegas da Grécia Clássica, dominava quase todo o conhecimento religioso, científico e artístico da sua época.
Durante os primeiros anos da sua vida destacou-se pela sua clara inteligência e espírito meditativo, e entrou num convento movido por uma fome mística, a mesma que lhe rodearia durante toda a sua vida tão inexoravelmente como as ondas rodeiam uma ilha. Mas, na verdade estava só… Ele pertencia a um futuro que mesmo os homens atuais, com todos os seus avanços técnicos, não puderam realizar plenamente.
Rebelou-se contra o obscurantismo medieval que, no seu fim, agonizante e enlouquecido, pretendia desbaratar a chamada da razão e da ciência investigadora. Renunciou aos hábitos e começou uma longa peregrinação que o levou ao Oriente e, talvez, até às portas do próprio Tibete Sagrado. No seu regresso, já dono de um rigor cultural extraordinário, começou a rebater com as mais originais teorias as superstições dos «Doutos» dessa Europa sumida na violenta comoção do Renascimento italiano.
Esse sábio chamou-se Giordano Bruno. Expôs em quase todas as principais Universidades a sua teoria sobre «A Pluralidade dos Mundos Habitados», quer dizer, que as estrelas não eram buracos na tela do céu, nem faróis sustentados por um Deus antropomórfico para iluminar a sua criação, mas sistemas solares como o nosso, rodeados de Planetas como a Terra e que, por lei de analogia, deveriam estar habitados por seres mais ou menos inteligentes.
Afirmou a Onipotência real de uma Lei-Natureza ou Divindade Imanente que estava em todos os seres sem diferenciação alguma e que iluminava a alma de cada homem sem distinção de posição social, credo religioso ou lugar geográfico. Ensinou aos seus discípulos que a Lei da Evolução, que desde sempre se sustentou no Oriente, estava complementada por outra de Correlação entre Causa e Efeito e a capacidade da Alma de tomar novos corpos periodicamente, ou seja, de reencarnar.
Tudo foi visto com maus olhos e começaram a perseguir-lhe e a destruir os seus escritos, invocando uma obediência inverossímil ao diabo-entidade que, por outro lado, segundo Giordano, só existia como forma mental, criada pelo temor ou ignorância dos homens.
Finalmente, devido à traição de um dos seus discípulos, foi preso em Veneza e encerrado na prisão de «I Piombi», na qual foi alojado, numa das celas submarinas, durante sete anos, ou seja, 2.555 dias com as suas 2.555 noites, sem ver outra luz do que a que se infiltrava por baixo da porta e tomando o mais pobre dos alimentos sobre os seus próprios desperdícios.
Tão miserável vida, somada ao fragor enlouquecedor e contínuo das ondas a romper sobre a sua encanecida cabeça, converteram-no em um dos cérebros mais brilhantes da sua época numa besta com forma humana, incapaz nos últimos tempos de emitir outra coisa que não fossem rugidos.
O Tribunal do «Santo» Ofício trasladou-o para Roma e foi julgado no convento de Santa Maria de Minerva, onde foi condenado a morrer na fogueira, depois de lhe ser arrancada a língua em pedaços. Mas ao ser-lhe lida a sentença, este Iniciado dos Mistérios Eternos reviveu de entre as cinzas do seu corpo e erguendo-se, envergonhou os seus juízes com esta frase:
«Tremeis mais vocês ao lerem-me esta sentença do que eu a escutá-la». Como que por milagre explicou com voz firme e enérgica os fundamentos científicos e filosóficos das suas teorias e a não agressão que tinha caracterizado todas as suas manifestações. Esta última fase do processo foi silenciada para o mundo, pois os seus captores tratavam de o fazer parecer um louco e ignorante feiticeiro. Mas, no século XX descobriram-se documentos (Strumenti e sentence ad anno 1580 al ano 1600, pág. 1379 à 1381) que puseram a claro para sempre tão lamentável episódio da história.
Sete dias permaneceu Giordano na cova inquisitorial e, ao amanhecer do dia 17 de Fevereiro de 1600, foi arrastado até um Funcionário Eclesiástico que lhe leu a fórmula: «Será castigado com clemência e sem derramamento de sangue». Poucas horas mais tarde foi vestido com o infamante uniforme dos condenados, mal pintado com cabeças de diabos e figuras geométricas e conduzido ao «Campo dei Fiori».
Depois da execução deste Benfeitor da Humanidade, as suas cinzas foram espalhadas ao vento, mas também outros homens mais inteligentes espalharam os seus ensinamentos que são, na sua maioria, do domínio público nas casas de estudo de todo o Mundo Civilizado. Nesta oportunidade em que o homem tenta conhecer a vida em outros mundos longínquos, recordemos com reverência a quem, pressentindo o futuro, foi assassinado por anunciá-lo.
Fonte: Fábio Oliveira

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