sábado, 5 de janeiro de 2013

ANGÚSTIA JUVENIL - Parte I

Autora:  Délia Steinberg Guzmán, Filósofa
 
Não é fácil definir juventude. Ainda que procuremos muito, diferentes autores, ao longo do tempo, não conseguiram um acordo sobre uma definição exata. Além disso, a juventude é tão rica e tão ampla em matizes, é tão plástica e tão extraordinária que não encontramos uma maneira objetiva, concreta, sintética de defini-la.

Como filósofos, temos uma fé enorme na juventude e uma grande esperança neste mundo futuro de que falamos tantas vezes e do qual tantas coisas dissemos. Pensamos que, no fundo, nenhum de nós deixou de ser jovem, e por um motivo ou outro, tampouco deixamos de ter algumas angústias, que poderão ser mais ou menos juvenis, mas que têm suas raízes nos mesmos problemas e em circunstâncias semelhantes.

Em geral, para definir a juventude deveríamos aceitar o que dizem alguns: que é um estágio intermediário entre a infância e a maturidade.

Na verdade, é um estado intermediário, não único nem definitivo, mas muito especial, porque sai da chamada "doce inconsciência da infância" para entrar de repente em um despertar repentino e imediato para as próprias realidades interiores, emocionais, intelectuais, físicas e psicológicas que ocorrem, e, por mais naturais que sejam, não deixam de impactar fortemente a personalidade do jovem.

Ao falar de juventude, não podemos referir-nos única e exclusivamente a essas mudanças físicas que ocorrem e que marcam a passagem da infância para a adolescência, mas também temos que nos referir a outras alterações concomitantes, psicológicas e mentais, muito profundas. Fazendo eco a velhas doutrinas tradicionais, temos que pensar também que a mudança na juventude vai ainda mais longe, e não só despertam a psique e a mente, mas que reaparece o próprio Eu, esse Ego Superior adormecido que vem do fundo dos tempos, e que precisa de um momento especial na vida para despertar e manifestar-se.

Não estamos de acordo com aqueles que dizem que a juventude começa com a puberdade, com a maturidade sexual. Nem devemos fazer acabar a juventude, quando aparece a maturidade e o ser humano já é adulto. Se assim fosse, deveríamos nos perguntar quando começa essa maturidade. Ou será que a juventude se prolonga muito mais, não só em seus aspectos positivos, mas justamente nos seus aspectos negativos, como a falta de maturidade para saber o que se quer?

Vemos que não podemos estabelecer limites. A riqueza humana é infinita, as múltiplas expressões da evolução humana são infinitas, e não nos permite ficar limitados a definições restritas. A juventude tem algo de novo nascimento; é como nascer de novo, mesmo se estiver dentro de um corpo físico e expressado material e concretamente.

A juventude é algo como abrir os olhos para uma nova forma de vida e suporta toda angústia que supõe justamente isso: ter que enfrentar uma nova forma de vida. É como se nascêssemos, mas desta vez o fizéssemos sozinhos, absolutamente sozinhos, porque sentimos que sozinhos vamos ter que resolver toda a angústia desse novo nascimento.

Como todo novo estado, esta nova juventude que acaba de nascer, nos é apresentada como instável, insegura e "intranqüila". Precisa garantir-se e não encontra como fazê-lo. E isso é o porquê da angústia, a que queremos nos referir. Podemos visualizar essa angústia de duas perspectivas: há uma angústia normal e lógica, que é própria do crescimento, do desenvolvimento deste ser humano que volta a nascer, quando deixa de ser criança; são todos os processos que reúnem a psicologia tradicional. Outro aspecto que nos preocupa muito, é a "outra" angústia, a que não é tão natural e própria da juventude; é a que soma nosso mundo circundante com todos seus problemas, e que é menos natural e mais estressante para a personalidade do jovem.

Comecemos pela primeira. A psicologia dos últimos 150 anos nos diz que, de fato, não se pode avaliar a juventude somente por umas mudanças fisiológicas, hormonais, por mais importantes que sejam, mas que temos que valorizar outros elementos, muito próprios e característicos do tipo psicológico, intelectual e moral. Curiosamente, essa psicologia sempre enfrenta todas as mudanças da juventude como se fossem patológicas, anormais. São tantas, tão grandes e tão importantes as mudanças que o jovem deve ter a sensação de que está doente e o que lhe acontece é terrível.

A primeira coisa experimentada pelo jovem é a necessidade de consolidar uma nova personalidade. De repente, tem que expressar novos conceitos e não há elementos para isso, e deve fortalecer-se em questões que parecem quase infantis, mas que são as primeiras que permitem expressar uma personalidade juvenil. Ele rejeita tudo o que foi o mundo anterior, porque significa criancice, ser pequeno, não pensar, não sentir, portanto, todo o anterior é mau, deve deixar de lado, rejeitá-lo. Dentro dessa rejeição geral, cabe imediatamente a ruptura da imagem que os pais tinham diante dos jovens, já não são o papai e a mamãe em que se refugiam, já não são o apoio, e junto com a ruptura desta imagem, caem as de todos os mais velhos que foram o apoio e o vínculo familiar mais imediato; todos os que haviam sido amores até agora se convertem em ódios. No jovem não existe meio termo: todo o amor que antes se expressava em relação aos pais volta-se para novos líderes. Há aspectos novos que têm de preencher o vazio que acaba de criar, e que desperta uma enorme angústia no jovem.
 
Engrandecem a figura do professor, ou do sacerdote, ou de um amigo um pouco mais velho, ou de algum líder político. Às vezes os jovens querem apoiar-se até em líderes fictícios, que são de sua invenção e representam o ideal, o arquétipo e o perfeito. Às vezes, apegam-se a personagens históricos que representam tudo o que o jovem gostaria de ser e todo o seu amor se volta para eles. Mas no fundo, do que se trata é de preencher um buraco. E isso ao mesmo tempo produz uma enorme nostalgia e melancolia por este mundo infantil que lhe escapa das mãos e não vai voltar. O jovem, numa primeira etapa, tem uma grande propensão para a tristeza interior. Sente que perdeu um mundo, mas que ninguém consegue explicar. Sente que acaba de nascer para outro mundo, mas nesse outro mundo ninguém lhe entende. E essa tristeza tão íntima, tão profunda, jamais se manifesta exteriormente. No máximo, deixa ver um pouco de melancolia. Por fora, existe uma alegria exagerada, completamente fictícia, com risadas estridentes e atitudes fora de lugar, ou agressões, ou uma vitalidade exagerada que força a agressão. E mais, o jovem agride a seus pais porque lhes culpa pela perda desse mundo, e com um pouco de sentido de culpabilidade espera que os pais também o agridam, o que lhe parece que ocorre imediatamente. E aqui se encadeia uma longa sucessão de angústias, incompreensões, com as discussões cotidianas, os enfrentamentos constantes e o fato de não poder conviver com aqueles que até recentemente eram um núcleo fechado e maravilhoso.

Diante desta situação o jovem responde de várias maneiras. Na realidade, é muito típico no jovem o despertar de ideias metafísicas; não na linha de uma metafísica filosófica perfeitamente elaborada, mas algo mais simples. O jovem começa a perguntar-se, pela primeira vez, o que são a vida e a morte. E se sugere que não é eterno, que está dentro do tempo, que tem crescido e mudado, que continuará crescendo e mudando e que desaparecerá. E então se pergunta sobre o que há além. Juntamente com estas idéias metafísicas aparecem outras de ordem moral. O jovem costuma ser muito rigoroso no começo, e de uma maneira muito sua e muito pessoal, muito rígida sobretudo com os demais, mas, em certa medida, também consigo mesmo. Se isso fosse levado a bom termo, teríamos o princípio do novelo que faria desaparecer a angústia juvenil de forma gradual. No entanto, e infelizmente, não acontece assim e esses primeiros ímpetos metafísicos e morais costumam promover nos familiares e amigos apenas um sorriso depreciativo ou uma piada um pouco cruel, que vai fazer feridas muito profundas no jovem.

Do ponto de vista intelectual, podem acontecer muitas coisas completamente diferentes. Ou se abandonam por completo, e nos encontramos com estes jovens que tinham sido brilhantes e, de repente, param e começam a fracassar nos estudos, ou o contrário acontece: encontram no estudo um refúgio ideal e tratam de intelectualizar todo o problema que estão vivendo, encontrando uma maneira maravilhosa no mundo das idéias, e sendo capazes de detalhar exatamente tudo o que acontece em seu interior. Neste segundo caso, desperta uma grande curiosidade dialética, sem importar se as idéias que defendem são ou não verdadeiras. Querem discutir, realizar, demonstrar força e habilidade. Isso os faz realmente felizes.

Outra reação típica do jovem é um pouco de egoísmo, que os psicólogos chamam de narcisismo. Centralizar-se em si mesmo, querer encontrar todas as respostas em si mesmo, exigir-se originalidade, porque para ser ele mesmo deve ser diferente dos outros e até um pouco excêntrico. Deve chamar a atenção, e isso é percebido muitas vezes em coisas simples como a moda. Mas é uma excentricidade muito especial, porque se destina a provocar um pouco os mais velhos. Também requer a aprovação de outros jovens que estão na mesma situação, para isso se cria grupos.

Uma característica positiva deste período da juventude, apesar de doloroso e pouco aproveitado, é o despertar da amizade. Talvez nunca como nesta época se saiba o que é verdadeiramente a amizade. As amizades da juventude são gloriosas, as únicas onde tudo é maravilhoso, onde há uma confiança ideal, fantástica, e onde o amigo é tudo: a fuga, o alívio dos problemas interiores, e também quase - em um terreno que não pretende entrar no nefasto nem no mórbido- como um teste para o que será mais tarde o amor. O amigo é o apoio moral. E além dessas experiências individuais de amizade, às vezes, o jovem encontra outra fuga que é a dos grupos, onde se integra porque precisa sentir-se forte, precisa da aprovação daqueles que o cercam, porque é muito difícil caminhar sozinho.

Os interesses dos jovens, segundo a psicologia, são muitos e muito variados. Costuma ser interessado em tudo, mas de forma pouco sustentada, hoje se começa algo e amanhã se deixa, começam muitas coisas e não terminam praticamente nenhuma. O importante é estar em movimento, mas realmente não está interessado em nada, há total apatia, porque deve responder ao excesso de estímulo da família ou de quem lhes rodeia, que lhes lança constantemente e recomendações sobre o que fazer ou não fazer, é uma ação defensiva.

E em geral, o problema é que é simplesmente jovem e tem problemas. É difícil de entender, mas é uma realidade.
Fonte: Fábio Oliveira

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