segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

ANGÚSTIA JUVENIL - PARTE II

 
Autora: Délia Steinberg Guzmán, Filósofa
Agora, voltamo-nos para outro aspecto. Nosso mundo, nosso angustiado século XX, chove sobre molhado e aumenta a angústia dos jovens. Vamos assinalar alguns dos aspectos que agravam enormemente a situação do jovem.
Como filósofos, talvez sejamos forçados a começar pelo que consideramos o mais terrível, o pior de tudo, que é a abordagem errada à educação, uma educação que não é dirigida aos jovens, completamente estereotipada e só leva em consideração os estudos em si, mas não o ser humano que os vai receber ou realizar. O resultado é que os mais velhos lançam os jovens, sem qualquer preparação, a um mundo cruel e competitivo, sentindo-se estes incapacitados de prover-se por si mesmos nestas circunstâncias; ou os superprotegem e os mantém continuamente presos, impedindo-os de provar suas forças e lançar-se neste mundo, o qual, mais cedo ou mais tarde, terá que enfrentar. Ou por falta ou por excesso, o jovem fica com uma educação deficiente e não pode se manifestar no mundo.
Em geral, os adultos podem cometer o erro típico de censurar o jovem que já não é mais uma criança e que tampouco é maduro, o que significa dizer-lhe que não é ninguém. Agora se fala muito de marginais, mas é que, sem querer nós mesmos os tornamos marginais, porque já não sabem o que são. E do marginal psicológico à delinqüência prática, às vezes, há apenas um passo. É romper uma barreira que pode ser pequena ou grande. No começo, se questionava a autoridade moral dos pais, mas acaba por questionar qualquer outra forma de autoridade, de modo que a vida social é praticamente impossível, e o jovem não reconhece e não respeita absolutamente nada. Como se isso não bastasse, explora-se cruelmente esta situação da juventude, aproveitando esta facilidade para o entusiasmo que há no jovem, esta facilidade para odiar e para amar, para embarcar em grandes aventuras, explorando com uma propaganda absolutamente indigna, já que costuma manifestar-se em forma de moda, que vão desde roupas até formas anárquicas de vida, desde as drogas até o ateísmo, desde a tática de irresponsabilidade pessoal até a rejeição a qualquer ordem estabelecida.
Uma juventude saudável não poderia ser explorada. Portanto, prometem-lhe mil e um paraísos impossíveis que nunca chegam e se chegam ainda são preocupantes, porque ainda há terreno para cultivar essa propaganda angustiante e continuar criando jovens que não sabem o que fazer com suas próprias vidas.
Como se isso não bastasse, surgem as respostas naturais que não devem surpreender-nos em absoluto. Hoje está na moda a apatia, mas é lógico, já que a passividade não é mais que um grito de angústia, uma maneira de dizer: o que posso fazer? Quando o jovem procura trabalho, pedem-lhe experiência. O jovem quer ser melhor, quer ser diferente, quer alcançar um ideal, quer formar uma família, mas o único caminho é que os pais lhe façam um lugar. Ou senão terá que esperar muito e não se sabe o que vai fazer nem quando. Se estuda, tampouco tem a possibilidade, na maioria dos casos, de aplicar o que estuda e terá logo que fazer qualquer outra coisa para ganhar a vida, para comer.
A esta angústia começa a se juntar outra: a juventude vai marchando e o jovem começa a se dar conta de que não fez absolutamente nada. É lógico ser apático nestas circunstâncias. E, claro, é lógico se dedicar ao protesto, tanto passivo e estéril, como agressivo e violento. E depois há estatísticas que falam da "solução" para a busca infrutífera que é a interrupção voluntária da própria vida.
Antes, quando se faziam pesquisas entre a juventude sobre os aspectos que mais lhe interessavam, destacavam no topo os valores estéticos, os valores morais, as necessidades metafísicas e as preocupações religiosas. Agora, as pesquisas mostram, em primeiro lugar, o bem estar pessoal, o dinheiro, o amor e, em seguida, algumas questões mais abstratas.   Mas  a  primeira  coisa      a   notar é a segurança, a tranqüilidade, o bem-estar.

Realmente se sente assim, ou a juventude foi empurrada a sentir e pensar dessa maneira?
Devemos perguntar se realmente os grandes sonhos da juventude morreram. Cremos que não, mas custa muito encontrá-los, e custa muito fazer um jovem confessar quais são seus grandes sonhos, pois os profissionais das entrevistas afirmam que os jovens não costumam responder a verdade.
Inclinamo-nos a pensar que os grandes sonhos estão lá, mas temos que saber encontrá-los. São sonhos que eliminariam pouco a pouco a angústia, mas para isso precisam tornar-se realidade.
Não há nenhum jovem que, fisicamente, não goste da beleza. Nem há qualquer jovem que rejeite a harmonia nem o bom gosto. Quando se rejeita é como um protesto e não porque não se ame o estético, o bonito, o agradável. A outra expressão é cuspir na cara do que não podem ter. Todos os jovens amam a saúde e gostam de se sentir fortes, no entanto, danificam a saúde, atentam contra o próprio corpo e destroem-no como uma recusa por pensar que afinal não há nada a fazer.
Os jovens podem negá-lo exteriormente, mas todos têm, no fundo, sentimentos puros e nobres. Ninguém gosta de sentimentos oscilantes, do que é hoje, mas não será amanhã, do que nos mantém sempre atormentados, angustiados e inquietos. Todo jovem sonha com a eternidade. Todo o jovem tem em um lugar privilegiado o conceito de amor, ainda que não queira confessar. Todo o jovem sonha com coisas limpas, puras, brilhantes e maravilhosas, ainda que não queira reconhecer.
Anarquia e desordem existem, mas são formas de sofrimento. Não há nenhum jovem que, intelectualmente, não busque a sabedoria. A inquietude, o desejo de investigação, conhecer cada vez mais coisas, é algo próprio da juventude. É como uma ânsia incontrolável de penetrar em todos os segredos do mundo.
O jovem quer saber, mas isso é difícil, porque às vezes tem que começar a retirar os véus, remover a ignorância e acender tochas no meio da escuridão. Às vezes, tem que descobrir que a ciência não só destrói, mas também constrói, que a investigação nos aproxima das leis mais íntimas da natureza, que a ficção científica não é suficiente para preencher todas as nossas horas, mas que existem leis genuínas que podemos conhecer sem cair em ficções. Às vezes temos que destruir falsos conceitos e descobrir toda a beleza que há na arte, com mensagens verdadeiras, e despejar estas outras farsas que às vezes temos que aceitar porque está na moda fazer isso. Às vezes, é necessário mostrar ao jovem que não é que seja ateu, mas não há nada bom ou nobre em que acreditar e que até mesmo a imagem e idéia de Deus têm sido abastardadas e sujas. Às vezes, temos que ensinar ao jovem que deve começar a recuperar a fé em si mesmo, para levantar-se progressivamente pela escada da fé em todas as coisas até chegar a Deus.
Quem nunca quis ou quer mudar o mundo?
Quem já não sonhou com esta revolução constante que nos permita eliminar todos os males e todas as injustiças?
Mas é bom ter a idéia de que esta revolução deve começar por si mesmo, dedicando-se ao trabalho, à responsabilidade pessoal e a uma ambição saudável que seja uma força constante que nos leve para frente. Não uma ambição sem limites, mas que leve cada vez mais em conta o respeito pelos outros.
Não há nenhum jovem que não sonhe com a felicidade. A felicidade existe e não é apenas a satisfação material, nem instintiva, mas algo mais com o que seguimos sonhando, sem saber exatamente onde a vamos encontrar. Diziam os estóicos que a felicidade absoluta não se encontra nesta terra, mas, no entanto, a cada dia podemos encontrá-la, se aprendermos a buscá-la com perseverança, com paciência, com discernimento, sabendo distinguir aquilo que nos convém e o que não nos convém.
Não há tampouco nenhum jovem que não sonhe com a liberdade, com esta possibilidade de voar, porque a liberdade para o jovem não é fazer qualquer coisa, mas saber que é o que quer fazer, e aonde se quer chegar com o que está fazendo. Não há nenhum jovem que não sonhe com essa liberdade interior para a qual não existem barreiras, para a qual não há nem mesmo a morte.
A grande pergunta que agora nos fazemos é se ainda existem jovens. Existem? Ou estamos condenados a ver apenas meninos com cara de adultos? Não nos assusta observar em nossos pequenos um olhar muito profundo para a sua idade, ou uma seriedade que inclui a censura, desde os primeiros momentos da sua vida? Também temos adultos vestidos de adolescentes que não foram capazes de superar a angústia juvenil. Temos que ultrapassar esta dualidade perpétua em que vivemos, sobretudo o jovem, que deve responder tanto às funções de seu instinto animal quanto aos seus sonhos mais sublimes, consciente por um lado de que é capaz de realizar proezas semelhantes às dos grandes livros, e por outro de que também pode ser um animal que se arrasta pelo chão. Temos que acabar com esta luta. Mas, para acabar com uma luta, não há escolha senão lutar. Em um velho e sagrado texto do Antigo Oriente, no Bhagavad Gita, há um homem ideal chamado Arjuna, que se encontra no momento exato da luta. Vai começar a lutar, e deve decidir-se naquele momento. Sofre desesperadamente. A angústia de Arjuna 5000 anos atrás não tem nenhuma diferença com a angústia que apresentam os tratados vigentes da Psicologia: é o mesmo desespero.
Arjuna tem todo o seu mundo animal e instintivo a um lado, e ao outro, todas as suas sublimes aspirações, as maiores, as melhores. Tem que decidir, escolher, romper com o estado intermediário, com a instabilidade, tem que passar pela prova definitiva.
Quando nas civilizações antigas os jovens eram submetidos a provas antes de aceitá-los como adultos na sociedade, não se agia de qualquer maneira, nem se agia para cumprir determinados ritos mágicos sem qualquer significado, mas os provava de forma muito especial. Era uma prova de "coragem", "decisão", era o momento da batalha, da escolha, de colocar em jogo o discernimento. "Atreva-se e é certo que sairá vitorioso".
Nos mesmos erros identificados como raiz e causa da angústia juvenil, estão as respostas que buscamos. Temos somente que inverter o erro, dar-lhes um sentido contrário e torná-los solução. Soluções de todos os tipos, desde as espirituais, intelectuais, emocionais, físicas e biológicas até soluções reais, práticas e concretas.
Temos que lembrar algo muito importante, é que, além da angústia juvenil, na juventude se concentram as potências máximas; e que para ser jovem, não é preciso somente ter um corpo jovem, mas há uma eterna juventude que é a da Alma, que tem a capacidade de se manifestar, sempre e quando ainda haja possibilidade de sonhar, e sempre quando ainda haja possibilidade de realizar esses sonhos. E devemos lembrar também que se é jovem, eternamente jovem e sem angústia, quando com sonhos e com forças para induzir os sonhos, se aprende a andar com uma tocha, uma velha e conhecida tocha que os homens de antes e os de hoje e os de sempre chamam Esperança, Esperança juvenil e não angústia juvenil.
Fonte: Fábio Oliveira

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